Éramos muitos irmãos, todos homens, vivendo numa casa sem
quintal e pequena, muito pequena. Assim sempre que minha mãe saía ela dizia, “não façam, arte, hein!”. Pra
quê! Era só ela virar as costas que nós íamos às artes, no caso, suprimentos
alimentares, comidas, gororobas diversas etc. Claro, não tínhamos nada das
guloseimas de hoje (nem da época, a de ser registrado), assim era
necessário improvisar e eram muitas as “artes”, mas tínhamos umas preferidas, farinha e açúcar (Já comeram?). É bem sofisticado, pega-se um pouco de
farinha e acrescenta-se um pouco de açúcar. Tuché! Está pronta a guloseima. A
melhor parte era falar com a farinha com açúcar na boca, era uma guerra, um
falando na cara do outro para sujar o companheiro (coitada da minha mãe quando
chegava). Outra era açúcar derretido. Realmente essa receita era muito
complexa e elaborada. Colocávamos um punhado de açúcar numa panela, esquentava até derreter
e depois espalhava na pedra da pia para esfriar e tínhamos a mais pura bala de
açúcar do Brasil! (claro com um pouco do gosto do alho ou outras coisas que
passaram antes pela pia. Acham que a gente limpava!?). Uma arte não tão boa, mas
matava a fome, era pão molhado com água e açúcar. Descia fácil. Agora tinha uma
que era “a guloseima”: ovo com farinha e açúcar (esses ingredientes nunca
faltavam). Era a junção do que havia de melhor e a receita era assim: pegávamos
um ou dois ovos crus, misturava num prato a clara com a gema, acrescentava-se
farinha e açúcar, mexia um pouco e, olé! Mais uma receita maravilhosa preparada!
O bom mesmo era comer esse ovo cru, com farinha e açúcar bem molinha na casa do
ovo, buscando o restinho do fundo da casca com a língua. Acho que vou preparar
um buffet com essas receitas e convidar meus irmãos para uma degustação para relembrar esse tempo (claro, eu não vou
querer nem olhar). Ah! Só esqueci um pequeno detalhe e por isso não vai dar, todos estão
diabéticos, a não ser que eu use adoçante. (hehe)
Meus filhos têm curiosidade de conhecer as histórias que meu pai contava e eu tento contar uma ou outra, mas percebo que não é a mesma coisa. Assim, a pedidos, resolvi registrar algumas situações vividas nesse meio século de vida. Quem sabe um dos meus netos não queiram conhecer, né?
30 março 2012
23 março 2012
Short Story XXXII - Bicicleta
Era amigo da minha mãe, sempre gostei
de estar com ela, conversar e estarmos junto. Lembro uma vez que meu pai nos
viu juntos conversando e falou: “que tanto conversam aí? Posso participar?”
Acho que rolou um certo ciúme... Cuidei dela até falecer, comprando os
remédios, fazendo supermercado, visitando-a e ouvindo a sua musiquinha de
despedida: ♪Quem parte leva saudade de alguém, e fica chorando de dor. Ai, ai,
ai, ai... tá chegando a hora...♫, meus filhos lembram até hoje.
Resumindo, era o filhinho da mamãe, amigo e companheiro, sempre junto, ajudando
nos afazeres domésticos, que não eram poucos e cuidando da casa quando ela
saía, fazendo gororobas que fizeram surgir um dos meus mais famosos bordões,
“melhor comer isso que morrer de fome!”. Quando estava por volta dos meus 14
anos, as coisas começaram a melhorar, visto que alguns irmão já
haviam casado e saído de casa e eu ganhei a minha primeira e única bicicleta da
minha vida. Minha mão comprou na antiga Mesbla, que nem existe mais há muito
tempo, e foi comprada em suaves prestações, exatamente 12 parcelas. Ela era
linda, uma Monark barra forte, aquela que tem uma bola de ferro no meio do
quadro e eu a adorava. Lavava, encerava, passava óleo, cuidava como um filho
querido, era o meu nirvana da felicidade e realização. Andava para cima e para
baixa, com aquele gostoso pneu balão e fui muitas e muitas vezes do Paraiso até
o Jockey (isso só sabe quem é de Saint Gangôlo, balneário ao fundo da baia da
Guanabara), distante um 20 ou 30 km, não faço ideia, mas eu fazia em cerca de
uma hora. Eu tinha amigos que moravam lá e sempre ia para aquelas bandas para
tomar banho num açude que havia naquela região, nos seus rios fétidos e
poluídos de esgoto, mas o principal, sem dúvida alguma, eram as pessoas. Hoje é
fácil chegar lá, tudo asfaltado, mas nas era assim quando moleque, passávamos
pelo Colubandê (não tem nada a ver com macumba, ok? É um bairro) e tínhamos de
soltar e empurrar a bicicleta de tanta areia que havia em pontos daquela rua,
parecia praia. Outra coisa que fazíamos era andar agarrado em caminhões ou
ônibus para poupar energia e ganhar velocidade. Hoje os ônibus nem tem mais
como agarrar, pois não tem mais apoio para se subir e era lá que nos
segurávamos, uma loucura, não sei como ainda estou aqui. Uma vez ia num dos
meus passeios, agarrado num ônibus Boassú (antigamente ônibus não tinha número,
tinha nome) e quando estava em frente ao cemitério de SG, agarrado ao mesmo,
indo à toda, o motorista, mui carinhosamente, começou a me espremer contra o
meio fio da calçada. Não conseguia sair daquela situação e estava vendo que
seria esmagado contra um poste que se aproximava rapidamente e joguei a
bicicleta para cima da
calçada, num ato de desespero, mas havia um pequeno detalhe, o meio fio que
dividia a rua do asfalto, bati nele e voei. Fomos juntos, eu a minha querida
bicicleta, como unidos que éramos, capotando, virando e ralando na calçada. Me
levantei e fui fazer o balanço dos estragos, minha roda da frente tinha virado
um oito e precisei carrega-la nas costas até em casa (não lembro de mim, mas
lembro perfeitamente como minha bicicleta ficou). Cheguei em casa e procurei
logo consertá-la para novas aventuras que ainda viriam e assim fomos nos
divertindo e pagando as prestações (doze, lembram?). Todo mês eu ia na Mesbla
em Niterói, onde hoje é a Loja Leader, pagar a prestação. Quando completou um
ano a última prestação foi paga, então ela foi roubada.
16 março 2012
Short Story XXXI - Cal
Trabalhei muito com meu pai e desde que me entendo por gente.
Lembro de uma vez que estávamos construindo a congregação do Porto Novo, eu,
pequeno, mal aguentava a pá de construção e lutava para encher as latas de
areia. Numa dessas minhas tentativas a pá passou reto e quase atingiu a perna
do meu pai e ele, falou: “ôpa! Longe de quem trabalha e perto de quem come”. Não
me recriminou ou ralhou comigo e isso foi marcante, afinal até hoje lembro, pois
ele poderia ter me chamado a atenção, tipo: “cuidado seu destrambelhado, olha o
que faz”, mas não, apoiou. Eu e meu irmão mais velho estávamos sempre
nessas furadas de obras e similares e tínhamos uma competição entre nós dois para ver quem levava
mais tijolos de uma vez só. Aí um levava 8, o outro levava 10, e depois 12
até que caia no chão e quebrava tudo, uma festa, coisas de moleques. Estava
sempre fazendo coisas legais, tipo, descarregando caminhão, levanto saco de
cimento de 50 kg na cabeça, virando concreto, carregando areia (Ai! Como já
subi morros carregando coisas, era uma formiga. Já ralei, acreditem, mas era
divertido). Também aprendi
muito, pois via como fazia e sempre tive apoio para fazer, mas nunca fui bom,
então nunca passei de ajudante, mas eu aprendi a fazer e tocar obra, que usei
muito nas 39 obras que minha esposa fez na nossa casa (haja puxadinhos!). Mas a
história de hoje é sobre um fato que nem sei como fazer vocês se transportarem
para a situação, pois é muito inusitada, mas vamos lá. A igreja que meu pai era
pastor tinha um telhado, era um telhado enorme, com cerca de 50 metros de
comprimento. Esse telhado cobria a laje da igreja e em cima dessas lajes haviam
vigas, com cerca de um metro, que cortava todo o perímetro a cada 5 mestros.
Assim tínhamos um imenso terraço com essas barreiras, que eram as vigas que sustentavam a laje, e em
cima o telhado de telhas de barros e o madeiramento. Esse “terraço", na verdade um
telhado, era usado para algumas coisas, como por exemplo casa. Pois é, eu e
meus 7 irmão moramos nesse telhado por alguns anos. Como éramos crianças não
nos incomodávamos, mas lembro até hoje do irmão dessa história comendo
pulgas. Pois é, haviam muitas pulgas lá, porque havia muita poeira, e o lençol
amanhecia cheia de bolinha de sangue (nosso, claro) e brincávamos de
captura-las e esmaga-las na unha, mas ele não fazia assim, ele as mordia e comia, mas voltemos. O telhado tinha multiusos e meu pai ia usá-lo para receber uns
pastores que iriam dormir nesse telhado (já tínhamos nos mudado nessas época) e
nos mandou pintar, isso mesmo, pintar o madeiramento do telhado com cal. Sei
que nem sabem o que é isso, mas cal é um produto usado para pintar casas de
pobres e quando cai no olho arde. Podem acreditar, arde e muito. E estávamos os
dois bocós pintando e quando uma gota de cal caia no olhos, nós saíamos correndo,
saltando as barreira (as vigas) até chegar numa torneira e lavar o olho. Que
coisa, né? Hoje eu levaria uma vasilha com água e deixava perto, mas achávamos
divertido sair correndo, saltando e gritando para lavar o olho, enquanto o
outro ficava morrendo de rir. Nesse dia meu irmão ficou com um cêcê terrível e ninguém aguentava, aí meu pai falou, “tenho desodorante no meu gabinete” e o
levou para aplicar no sovaco. Coitado, voltou com todo ardido, meu pai passou loção pós barba no manôlo.
09 março 2012
Short Story XXX - Preconceito
Hoje vivemos num mundo melhor, mais evoluído, lutando contra
o preconceito, batalhando pela igualdade e punindo quem não segue essas normas
de convivência, por isso já vou começar o post me defendendo para não apanhar
muito, como apanhei quando contei sobre como víamos a morte no meu tempo.
Quando moleque o mundo não era assim, nossas piadas eram sobre aleijados,
tortinhos, mulheres esquisitas, fanhos, malucos, negros (que nem posso mais
chamar de como chamávamos), pessoas especiais (também não posso mais dizer como
as chamava), portugueses (esses continuam sendo escrachados), papagaios e quaisquer outras
pessoas ou situações que fossem diferentes de nós. Só não sofria bulliyng os
gordos, porque simplesmente quase não existiam crianças gordas, não lembro de
nem uma, se não... ah! iriam sofrer também, com certeza! Era divertido, mas
cruel, reconheço hoje, mas não era assim naquela época. Hoje também, se deixar,
as crianças não seriam diferentes e sim iguaizinhas a nós da década de
70, porque o mesmo crueldade que existia em nós continua existindo nas de hoje também.
Mas chega de filosofia e vamos aos fatos do passado, objeto dessa história.
Como dizia zoávamos qualquer ser ou situação diferente de nós e no nosso bairro
existiam duas anãs, que só de ver percebe-se que são diferentes (hehe), assim a
molecada caia em cima quando elas passavam na rua. Achávamos aquilo o máximo e
nos divertíamos à beça, mas elas não (não sei por que). Um dia quando fazíamos
nossa cota de maldade diária uma delas não aguentou mais, deu meia volta e veio
para onde eu estava (os demais saíram correndo, só o bobo ficou. Talvez fosse o
menor). Estava eu sentado num meio fio, em frente a uma barbearia que existia próximo
à minha casa. Lá trabalhava um velho barbeiro, muito ignorante, que raspava a
nossa cabeça deixando apenas um topete na frente. Conseguem visualizar? Cabeça
raspada com um tufo de cabelo na frente? Era assim o corte de cabelo das
crianças, que chamávamos “corte topetinho”. Depois, quando a criança crescia um
pouco mais, tipo uns 14 anos, o corte evoluía para o que chamávamos “Príncipe
Danilo”, que era basicamente o mesmo corte topetinho, mas com um tufo maior
cobrindo a parte de cima da cabeça. Dizíamos que era colocado um pinico na
cabeça e passava a máquina no que ficava de fora. Era uma máquina de cortar
cabelo manual, não existia elétricas, que ia fazendo inheque, inheque, inheque
ao redor da nossa cabeça. Aquilo grudava no couro cabeludo e tirava pedaços,
nas mãos daquele ignorante (até hoje tenho trauma dele). Voltando a anã, ela
tinha unhas enormes, pintadas de vermelho e muito bem cuidadas e as usou para
agarrar minhas orelhas (que pensei que fossem ser arrancadas). Ela ficou uns cinco
minutos agarradas às minhas orelhas, me dando uma grande lição de moral, sobre
respeito aos diferentes, que nunca mais esqueci. Não lembro minha idade, mas
como ela era maior que eu, devia ter uns oito ou nove anos. Ela está viva, de
vez em quando ainda a veja passando na mesma rua, mas agora sozinha, não sei o
que aconteceu com a outra.
02 março 2012
Short Story XXIX - Linguiça
Tenho contado muitas histórias em que me estrepo (as campeãs
de audiência), mas não trago nenhum trauma ou ressentimento, era feliz, acreditem. Mas..., essa história..., eu confesso, é dolorosa, nem gosto muito de lembra-la, mas,
pelos registros históricos... vai lá. Quando moleque fiz muitas coisas para
ganhar dinheiro, mas sem obrigações ou necessidade de sobrevivência, fazia
porque gostava de trabalhar, nunca precisei ajudar em casa e meus pais nunca
pediram nada, éramos pobres, mas todos ao nosso redor também o eram e não nos
faltava nada (o padrão da época era: comer, beber e vestir. Ponto). Hoje? Sem
comentários. Portando essas histórias que para uns e outros são tristes, para
mim não. Essa, como já disse, é diferente. Bem, vamos lá, Sempre trabalhei,
e uma das atividades que eu fiz foi vender linguiça. Isso mesmo, linguiça, e de
porta em porta, nas casas. Tudo começava acordando a 4:00 da manhã, pegava dois
ônibus e ia até a fabrica de linguiças. Tinha de chegar cedo, se não elas acabavam e
a viagem era em vão, pois eram muitos os vendedores de linguiça como eu e se
formava uma grande fila de interessados quando ainda estava escuro. Algumas vezes isso
aconteceu, mas quase sempre conseguia meus 20 quilos de linguiça e embutidos, como
lombinho e costelinha, mas o forte era linguiça, tipo 15 de linguiça e 5 dos
demais produtos. Comprava, pagava e começava o meu sofrimento, carregar aquele
peso. Minhas mãos ardiam, nas alças da bolsa de pano que minha mãe tinha feito
para mim. Pegava o primeiro, depois o segundo ônibus e ia à luta, vender. Voltava
para o bairro onde morava e ia, de porta em porta, batendo palmas e oferecendo
meus produtos, não era fácil. Lembro que as linguiças vinham embaladas em sacos
plásticos de 1 quilo, mas nem todos podiam comprar um quilo inteiro e eu tinha
que dividir o saco de um quilo em duas ou até em três partes. Usava uma “balança
de peixeiro” para fazer esse trabalho, mais o que valia mesmo era o olho, vamos
chamar de “balançolho. O local que eu mais vendia era a favela “do Gato”, onde
ficava a Praia da Magata, que foi destruída por uma rodovia e depois por um
estaleiro (vide historia XXIII). Lá ia eu, gritando pelas vielas: “olha a
linguiça” e, como disse, batendo de porta em porta, ouvindo muitos e muitos nãos
até conseguir concluir minha venda. Essa luta eu tive por 6 longos, muito
longos, meses até que consegui um novo emprego. Lá eu ia usar minha habilidade,
adquirida num duro e longo curso: datilografia. Era uma editora, lá pude
utilizar então minhas habilidades de datilógrafo e fazer uma atividade
diferente, mas era muito, muito longe e o salário não era grande coisa, fora
que eu estudava à noite, vinha dormindo em pé no ônibus, que raramente aparecia,
tinha dia de espera-lo por duas horas e quando chegava estava entupido, difícil
de entrar e depois que entrava não pode tirar o pé do chão, se não não
conseguia mais coloca-lo e tinha de vir num pé só, tipo saci-pererê. Uma vez conversava com uma
pessoa que trabalhava nessa editora e falei da minha última atividade e quanto
ganhava. O, para mim, sem noção me questionou
porque eu não continuava vendendo linguiças, visto que eu conseguia ganhar mais
dinheiro que no escritório? Ia tentar responder, mas ele não entenderia.
26 fevereiro 2012
Short Story XXVIII - Motos
Moto é um meio de transporte perigoso e, infelizmente,
poucos têm consciência disso, mas não vamos filosofar e sim contar histórias,
certo? E esse post é sobre minha época de motoqueiro. Como já disse, minha mãe
tinha muito orgulho dos seus filhos, que ela chamava de “minha ninhada“ e
quando eles ficaram adultos sempre dizia, “todos criados, todos vivo!”. Somos sete homens e
uma menina, mas a rapaziada já deu trabalho, hoje, não, estão velhos e caquéticos como eu, mas houve um período que vários compraram motos ao mesmo tempo. Era outra época e nós éramos
caretas, não como essa molecada de hoje, que andam numa roda só, fazem piruetas
e andam em grande velocidade, nós usávamos para ir e vir, somente isso, visto que trabalhávamos e estudávamos, mas mesmo assim coisas aconteciam. Minha primeira moto foi uma
CG 125 usada, muito usada, há de ser registrado. A porcaria só fazia barulho,
pois eu não tinha grana pra comprar um cano de descarga, mas andar mesmo era outra
coisa. Levava minha namorada em casa com a moto em ponto morto e o motor
desligado, só ligava na hora de sair e era um barulho dos infernos! Acordava
toda a vizinhança, mas as coisas foram melhorando, comecei a trabalhar e
comprei uma Lambreta, ou Vespa, como se chamava à época. Ô motinha gostosa, até
hoje tenho saudades, a usava para trabalhar e estudar, era muito legal. Como
ela tem uma saia na frente era uma aventura atravessar a ponte Rio Niterói quando ventava muito. O vento batia naquela frente a Vespa balançava e
sacodia como um cavalo xucro, uma loucura domar aquela coisa no meio da Ponte,
sacudindo como um saco, aí eu descobri uma maneira de vencer tanta turbulência:
andar no vácuo dos ônibus. Assim lá ia eu, a poucos centímetros dos grandes
ônibus, longe da turbulência dos ventos, mas perto da morte, pois bastava um
movimento do ônibus e eu entrava na traseira dele. Com ela fui tentar ensinar a
minha futura esposa a andar e foi uma experiência única (ela nunca mais tentou,
não sei porquê). A levei para uma rua sem asfalto para ir se acostumando e
aprendendo, íamos devagar, afinal ela não tinha experiência, quando surgiu um
caminhão betoneira vindo em nossa direção. Até aí tudo bem, existem muitos
caminhões nesse mundo, o problema é que ele resolveu, do nada, entrar à sua
esquerda e, por coincidência, correspondia a ser na frente da lambreta pilotada
toscamente por ela. Quando aquela jamanta enorme atravessou na nossa frente a
poucos metros ela, jogando uma grande quantidade de poeira, ela se apavorou e
nos escafedemos no chão. Foi um tombo bacana e minha moto novinha toda
arranhada, mas nada de grave aconteceu. Consertei a Vespinha e então foi a minha vez: vinha eu na Avenida Rio Branco, no meio dos ônibus e carros, lógico, quando um
pedestre resolver atravessar, sem respeitar o sinal. Foi muito rápido, um
pancadão, peguei o cara de frente, voei e fui ralando pelo asfalto. Ia eu na
frente, na inércia, e olhando para trás, vendo a vespa também ralando atrás de
mim e eu preocupado dela me atropelar, mas ela foi indo para a sarjeta e eu me
mantive no meio da Avenida. Correu tudo bem, só quebrei o pé, afinal usava tudo
que tinha direito, capacete, casaco de couro, calça grossa etc. O casaco ralou
todo (antes ele do que eu. hehe) e a vespa também e fui, se é que posso usar essa
palavra, “evoluindo” para motos maiores. Comprei uma XLX 250, que curti muito
com minha namorada, indo e vindo para tudo quanto era lugar, mas era difícil,
ela dormia na garupa e eu tinha de ficar dando cotoveladas para acordar, complicado...!
E depois comprei uma CB 400, minha última moto, um motocão, grande e pesada. Um
final de tarde, vinha eu na Ponte, a mesma do cavalo xucro, entre os carros,
como tem de ser, sem correr muito, 80 km/h. Eu era um piloto constante, com o
trânsito parado, andando ou lento, eu sempre andava a 80. Como dizia, vinha eu
na minha velocidade de cruzeiro, quando um Passat, carro de luxo da época,
resolveu sair da sua fila e tentar a sorte em outra. Não foi boa ideia, eu que
vinha na minha fui abalroado e jogado pra cima. Lá ia eu de novo, eu na frente,
moto atrás querendo me atropelar. Fui ralando, de novo, até a inércia acabar e
fiquei sentado no asfalto. Vieram me ajudar e eu falei, “estou bem, me deixe um
pouco aqui”. E fiquei eu, sentado no meio do asfalto em plena Ponte Rio Niterói.
Depois de alguns minutos pedi para me ajudarem a levantar a moto, desamassei o guidom
e fui pra casa. Nunca mais subi numa moto.
04 fevereiro 2012
Short Story XXVII - Pindamonhangaba 2
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| Onde está Wally (Eu)? |
27 janeiro 2012
Short Story XXVI - Frank
Muitos não sabem e vão descobrir agora, mas eu já fui
guitarrista. Isso mesmo, o coroa aqui já foi um Keith
Richards, dos Rolling Stones, e hoje vou contar a história de Frank,
minha primeira e única guitarra. Ela tinha esse nome, pois era a junção de
muitas partes diferente e às vezes muito, mas muito diferente, por isso o
diminutivo nome de Frankenstein. Tudo começou comigo tocando violão, e tenho de abrir um parêntese para eu falar do meu pai, ele
sempre apoiou os filhos em tudo que desejassem fazer, claro, sempre dentro das
suas possibilidades. No caso do violão ele encontrou um irmão da igreja que
tinha um usado e comprou dele parcelado. Depois veio naturalmente um desejo,
como jovem que já fui, de ter uma guitarra. Para quem não sabe também disso,
guitarra é igual a um violão, mesmas posições, mesmos acordes, apenas com
um som e maneira diferente de tocar. Fui conversar com meu pai, que como já disse se prontificou a apoiar e ele soube de uma pessoa que tinha um bojo de guitarra.
Fui parar com ele num buraco, bem na roça em busca desse bojo. Ele foi
conversar com o dono, passou um tempo e ele voltou com o bojo de
guitarra na mão. Estou falando bojo porque sou bonzinho, na verdade ele trazia um
tronco de madeira bruta, áspera, que tinha sim, o desenho de guitarra. Fomos
para casa, eu e o bojo na mão. Fiquei com aquele bojo alguns meses, pensando no
que fazer com ele e fui então correr atrás e consegui com um amigo um braço de
guitarra usado. O braço era tão velho que os trastes (nome dos ferrinhos que
ficam no braço, OK? não estou ofendendo ninguém) eram gastos e tinha valas
feitas pelas cordas que foram tocadas nele por muito e muito tempo. Estava indo
bem, já tinha o bojo bruto e o braço, faltava alinda alguns componentes, como
as ferragens e, logicamente, eram usadas também. (Porque acha que eu a chamava
de Frank?). As ferragens estavam mal, muito mal, descascadas e com uma péssima
aparência, mas consegui uma pessoa que fazia a cromagem. Levei lá e depois de
uns dias voltei com as ferragens novas, lindas, o cara era bom. Estava indo muito bem, claro que já
haviam ido seis meses, e agora não faltava muito para ter minha guitarra, “apenas”
a parte elétrica, a montagem e o acabamento. Fui fazendo um pé de meia, esperei
um pouco e comprei, agora sim, novos os captadores, botões e plugues da
mesma. Só faltava a última parte, montar. Por sorte tinha uma amigo que era
marceneiro e conseguir convence-lo a montá-la para mim. Ele era marceneiro de
móveis e coisas de madeira em geral, não um luthier (pesquisem no Google, não
vou dizer o que é) e, sob minha orientação foi montando e depois começou a dar
o acabamento na madeira, agora sim área que
ele dominava e muito bem. Isso demorou algumas semanas e, num belo dia, ele me
chamou na casa dele, que era na favela do gato (tão pensando que tinha muitos felinos
lá? Tinha mesmo, mas eram gatos de luz, era um imenso amarrado de fios
pendurados, por isso o nome da favela) e me mostrou a minha Frank, linda, o cara era muito bom, ficou
muito boa, funcionava e comecei a usá-la. Foram dias gloriosos, eu e minha guitarra (hehe,
tô brincando, era um tocador medíocre, nunca fui grande coisa), tocando em
eventos diversos. Fiquei com ela e nunca me deixou na mão, até que
tive a brilhante ideia de trocar o braço, que realmente estava muito ruim.
Consegui um outro braço usado e em melhores condições que o outro e eu, ao invés de levar para meu
amigo, fui trocar e essa atitude está no meu panteão das grande
besteiras que já cometi (pois é, eu tenho esse panteão e está sem espaço para novas). Esse
novo braço velho era um pouco diferente do outro, não encaixava perfeitamente
no espaço do antigo, ele era um pouco maior, e eu, ao tentar coloca-lo, forcei o bojo e Frank rachou ao meio. Foi muito triste.
19 janeiro 2012
Short Story XXV - Homenagem
Quero abrir um pequeno espaço em minhas histórias para
prestar uma pequena homenagem. Em nossas vidas existem, muitas e muitas vezes, figuras que estão sempre ao nosso lado, independentemente do que sejamos ou
estejamos passando. Por esse motivo elas são dignas de
reconhecimento do seu valor e ignora-las seria uma grande falta de consideração,
não reconhecer seu valor e companheirismo incondicional, uma afronta. Tenho um
caso desses em minha vida, caso único, nunca tive igual e duvido que alguém
tenha um igual. Pois é, essa história é uma homenagem à minha escova de
cabelos, mas não uma escova qualquer, é “a minha escova de cabelo”. Essa escova
está comigo como aquela música do Raul Seixas, “eu nasci, há dez mil anos atrás”,
exagerando um pouco, ela está comigo quase esse tempo (hehe). Ela esteve quando
eu penteava meu cabelo para o lado e depois penteava para trás, e depois para o lado, e
depois para trás (qualé, pô! Não dá pra variar muito um cabelo masculino. Se eu
tivesse saído do armário...! hehe). Pois é, a minha companheira esteve comigo quando eu era
vigilante (Story XXII), quando eu tive minha primeira namorada, quando
fui para Pindamonhangaba (Story XIV), quando fui na ilha (Story XII), depois quando voltei
de Pinda e quando casei (observe o detalhe do meu cabelo cruzado na nuca nas minhas
fotos de casamento, foi ela), esteve comigo em toda a minha vida profissional que se iniciou em 1985 (já estão fazendo contas, né?), viu ao meu lado, o meu Fluminense ser campeão
brasileiro de 1984 e de novo em 2010 (um dos poucos seres vivos que puderam
testemunhar esse fato), depois tive filhos e ela foi muito usada por eles, depois
eles se tornaram adolescentes e agora ambos estão na faculdade, e ela comigo,
uma heroína. Ela viu comigo as vitórias do Airton Senna, viu o surgimento e fim
do grande piloto Michael Schumacher, viu o Brasil perder com a seleção dos
sonhos em 82, depois ser Tetra e depois Penta Campeão mundial. Só para os mais
jovens entenderem o que eu quero dizer, ela é de antes do Chaves! Isso mesmo! E ressalto um fato relevante: nunca a traí ou tive outra escova, sempre a mesma
(coitada!). Minha escova é um bem imaterial, tem um valor sentimental que as
poucas cerdas restantes dela não têm como entender. Ela foi a única que aceitou
meu rebelde cabelo, que meu barbeiro tanto “gosta”. Ele diz que ele corta
cabelos de vários clientes e tem uns clientes que têm um redemoinho aqui e outro redemoinho ou acolá, mas meu cabelo não, “é um redemoinho só”. Mas ela não desiste, está sempre junto,
ajudando a dar aquela caprichada que todos sabem como é (não sabiam o segredo,
né? agora já sabem, minha escova!). A coitada está tão caquética e há uns anos
proibi que minha família a usem-na, se não iria acabar muito mais rápido,
afinal, cada vez que minha filha a usava, com seus longos cabelos, ela ficava
mais careca. Graça a essa decisão ela está durando um pouco mais, mas penso que
o final se aproxima, pois como disse restam poucas cerdas e terei de aposenta-la (acho que de 2020 ela não passa). Aí me vem uma grande questão, o que fazer com
seus restos mortais ou cerdais? Não sei o que fazer e estou muito dividido. Num determinado
momento meu lado negro me diz para eu jogar para cachorros pegaram ou para os
ratos da minha filha roerem, num outro momento penso em por num quadro na
parede ou numa caixa de vidro lacrada e por em exposição na sala (minha esposa
iria adorar); à vezes penso em dar um final digno de uma grande companheira:
ser cremada (quem sabe usar seu fogo para assar umas carninhas, hehe).
Brincadeira, não sei o que fazer com o que resta dela, aceito sugestões. Estão
curiosos, querem saber quantos anos ela tem? Aí é como a marca da besta, tem de
fazer contas, eu a tenho desde 1981, estamos em 2012... (foto original da
coitada).
13 janeiro 2012
Short Story XXIV - Formatura
Hoje as crianças se “formam” quando terminam a alfabetização
e até para a conclusão do jardim se faz uma linda formatura. Há uns dias estava
vendo no FB a “beca” da filha da minha sobrinha. Uma coisinha linda, uma bequinha
vermelha, pequerrucha, muito legal! No meu tempo não tínhamos toda essa pompa e
circunstância de hoje, mas também tínhamos a nossa e chamava-se “festa do
livro”. Era uma festa na escola, onde os alunos recebiam um livro para celebrar
a alfabetização. Minha mãe tinha por hábito nos colocar numa escola particular
para sermos alfabetizados, depois não, era escola pública mesmo, mas ela tinha
esse carinho até a minha vez, o 6º filho. Depois de mim passaram a sempre
estudar em escola particular, isso porque a situação melhorou um pouco, visto
que pelo menos quatro já tinham ido embora de casa pois casaram. A escolinha que ela me colocou era
na nossa rua mesmo e era na verdade duas salas comerciais que funcionavam como
escola, a turma A e a turma B. O colégio se chamava Externato Olivier o “entra
burro e sai mulher”. Pois é, eram outros tempos, o bullying já começava na
alfabetização. Eu fui um aluno exemplar (hehe) e consegui me formar depois de
muita ajuda da minha mãe para eu conseguir aprender a ler as primeiras letras e
escrever as primeiras palavras e ia me “formar”. Hoje, tempo das impressoras laser
e jato de tinta, xerox etc talvez nem saibam, mas as cópias antigamente eram
tiradas num equipamento chamado mimeógrafo. Já ouviram falar dele? Pois é, era
um rolo, tipo rolo compressor mesmo, que era preso um papel marcado por carbono, e depois recebia uma folha
de papel umedecida em álcool que era prensado nesse rolo e copiava o que se
desejava. Para a formatura a diretora da escola me deu uma folha mimeografada,
como se dizia, com o modelo da beca, que era apenas a parte de cima, pegando
apenas nos ombros e o chapéu (não sei como chama aquele chapéu com um corda
pendura) e levei para minha mãe. Eu, coitado, um molequinho, sem noção nenhuma
continuei estudando, quando chegou o grande dia, o dia da minha formatura. Me
arrumei, me preparei para esse grande dia e minha mãe foi colocar a minha beca
para a minha apresentação, prendeu o desenho do
mimeógrafo no meu bolsinho, que ela havia cuidadosamente recortado com uma
tesoura. Não entendi bem e fui todo serelepe para a escola com a “beca” fixada
com um alfinete no meu bolso. Quando cheguei lá tive uma grande surpresa, todos
os meus coleguinha estavam vestidos com a beca e não com ela recortada e presa
no bolso! A diretora quando viu a situação cuidadosamente foi me levando para
o fundo da classe de forma que ninguém me visse. Todas as crianças
foram sendo chamadas e recebendo seu livro com uma grande salva de palmas, eu,
discretamente recebi o meu, sem palmas ou apresentação. Até hoje tenho dúvida
se minha mãe fez aquilo porque achou que era assim mesmo ou esqueceu de mim.
Não sei se foi por esse motivo, mas nunca tive uma
formatura na minha vida, nem quando conclui a faculdade.
06 janeiro 2012
Short Story XXIII - Picolé
Algumas historias escrevo a pedido, essa é uma delas. Sempre gostei de trabalhar e ter meu dinheiro, até porque era esse ou nada, assim sempre dava um jeito de ganhar algum. Algumas das minhas histórias citam isso e o que gerava mais receita era vender picolé. Hoje quase não vemos mais os vendedores de picolés nas ruas, vemos é esse iogurte de R$ 0,50, que até gosto de comprar, mas picolé mesmo, não. Havia uma fábrica de picolés perto de minha casa, que fazia grande sucesso e comprávamos lá para vender. Nós tínhamos de ter uma caixa de isopor para começar a vender e isso era a grande dificuldade, ou seja, precisávamos de dinheiro para conseguir ganhar dinheiro. Normalmente nós vendíamos ferro velho (lata, cobre, metais, vidros, papelão etc) que catávamos e assim comprávamos uma caixa pequena, que não dava uma boa renda, mas era um começo e depois íamos trocando e comprando uma caixa maior, que dava para uns 40 ou 50 picolés. Num dia de verão saí vendendo meus picolés, ia pelas ruas gritando, “olha o picolé! Picolé!” e muitas vezes vendíamos numa praia, que ficava ao fundo da Baia da Guanabara, chamada Praia da Magata. Devem estar se perguntado porque “se chamava”, não? É que ela não existe mais, passou uma rodovia por cima e depois construíram um estaleiro no que restou dela, coitada. Mas, nessa época, era uma praia famosa e os pobres gostavam de ir lá, como os piscinões de hoje. Como minha mãe me via nessa luta de andar de sol a sol, cabe ressaltar descalço, comprou para mim um chapéu de palha enorme, como os sombreiros mexicanos (como o da foto), e lá eu saía com meu chapelão, minha caixa de isopor e meus picolés para vender, gritando. Um dia tive uma venda muito especial, fiz quatro viagens e consegui vender uns 200 picolés e estava feliz da vida com minha féria. Como o dia estava terminando e o sol se pondo, achei que, como filho de Deus, merecia um mergulhinho na praia da Magata. Assim cuidadosamente escondi o fruto do meu duro dia de trabalho dentro da minha caixa de isopor e fui me refrescar um pouco e depois ir para casa. Entrei nas águas mornas e aproveitei, fiquei uns minutos, nadando e mergulhando, aproveitando o fim de tarde tão gostoso e voltei para pegar minha caixa de isopor, que me esperava. Eu me vesti e ansiosamente peguei minha caixa para i embora e, para minha surpresa, o dinheiro havia sumido. Fui roubado.
01 janeiro 2012
Short Story XXII - Vigilante
Falar do meu primeiro emprego é complicado, pois trabalho
desde que me entendo por gente, seja catando ferro velho, seja vendendo limão
na feira, seja trabalhando com meu pai em obras, seja trabalhando com meus
irmãos mais velhos como ajudante de mecânico, ajudante de pedreiro, ajudante na
gráfica, colaborando na impressão de boletins, ajudante de eletricista,
faxineiro de igreja etc então vamos chamar de primeiro emprego com carteira
assinada. Perturbava meu pai pedindo para ele me ajudar e ele então me levou a
uma floricultura para ser entregador de flores. Usaria um jaleco azul e um
triciclo para ir e vir com as muitas flores e entregando-as aos clientes: me
recusei (sempre fui metido e magro, tinha 59 quilos e 1,80 m. Até o exército me
recusou por falta de peso). Como não aceitei esse, nem o de vendedor de pão na
rua, ele então falou para eu esperar fazer dezoito anos que ele teria outra
coisa “boa” para eu fazer. Assim, no mesmo dia que fiz meus dezoitão dei
entrada na minha carteira de identidade (no passado só com dezoito era
possível), recebi um protocolo e voltei ao meu pai que então me levou à
empresa, uma empresa de vigilância. Fui apresentado ao amigo de meu pai,
entreguei o protocolo da identidade e outros documentos e já fiquei para
trabalhar. Os caras me deram um uniforme marrom e bege, um quepe, uma
cartucheira, presa a um cinto largo e um trinta e oito ou treizoitão. Nunca tinha
visto uma arma na minha vida e minha mão cedeu quando a recebeu, entranhando o
peso. Olhei para a bichona e achei meio esquisita, visto estar um pouco
enferrujada e velha, mas nunca tinha visto uma, então nada falei e me calei. À
noite me levaram para uma casa velha em Icaraí para eu vigiar. Era uma casa
antiga e abandonada, ainda com os móveis e um automóvel rabo de peixe em cima
de tripés na garagem, pois havia uma briga entre os herdeiros. Peguei o
treizoitão e fui para uma velha cadeira que ficava na varanda em frente da casa
esperar o dia amanhecer. Demorou para isso acontecer...! e pudesse ir embora para
casa...!, mas finalmente amanheceu e fui rendido pelo novo vigilante que me
perguntou pela noite, se foi tranquila ou teve alguma ocorrência e aí então fui
saber por que aquela arma era meio esquisita e velha. Era comum a
bandidagem pular o muro da casa, dar um sacode no vigilante (eu) e levar a arma
dele, então davam a pior que tinha para o coitado (eu de novo) e assim
minimizar o prejuízo da empresa. Fiquei uns dias vigiando essa casa e fui
transferido para outro posto, agora na subestação de energia da Ampla no
Alcântara. Lá era legal, eu tinha de abrir e fechar o portão para os caminhões
e carros que entravam e saíam, conferir identificações e revistar bolsas e
sacolas dos pobres (faxineiros e operários, os chefes saiam direto nos seus
carros) e assim ia meu dia. Um dia era feriado e o movimento era muito pequeno
e estava meio entediado, então comecei a brincar com minha arma, levantando e
abaixando o cão da arma suavemente, quando houve uma grande explosão, caí para
trás da cadeira com arma ainda fumegando na mão e desesperado, pois tinha dado
o primeiro e até hoje único tiro da minha vida. Procurei um buraco em mim, mas
vi que ela tinha passado a centímetros do meu joelho e encravado na parede em
frente. Fui expulso da corporação (não sei por quê. Ô vida injusta, sô!).
Brincadeirinha. Graças ao amigo do meu pai fui poupado e ainda vigiei (e dormi)
muitos outros lugares, um deles foi a antiga sede da Ampla, em frente às
Barcas. Nesse posto era eu mais outro vigilante veterano e passávamos a noite
dormindo, digo, vigiando, na verdade era um rodízio, enquanto um dormia atrás
do balcão o outro ficava “alerta”. Uma noite era minha vez de ficar acordado e
ouvi um barulho que parecia vir do andar de cima e era como se alguém estivesse
virando uns móveis, tipo, “vrum, vrum, vrum”. Dava um tempo e recomeçava, “vrum,
vrum, vrum”. Acordei meu companheiro que ficou também ouvindo e decidimos subir
para ver o que era. Íamos como nos filmes, se arrastando lentamente pelo
cantinho da parede da escada, arma em punho, ouvindo o barulho e indo ao
encontro dele. Chegamos no andar de cima, ele olhou para um lado e para
o outro do corredor e nada, então fez sinal para eu segui-lo. Não era ali e decidimos subir mais um
andar, pois agora parecia vir de lá o som. Novamente pelo cantinho da parede da
escada lentamente, arma em punho e subindo. De novo, ele olhou para um lado e para o outro, não vendo nada me fez
sinal para eu subir. Continuamos atendo ao som e percebemos que ele vinha de uma
sala em frente, ao final do longo corredor à esquerda. Fomos lentamente ao
encontro dela, ele na frente, eu sempre atrás (hehe) e chegamos a porta. Ficamos
um tempo ouvimos ouvindo o som, “vrum, vrum, vrum” e ele decidiu entrar, mas a
porta estava trancada, então ele recuou um pouco e deu com o pé na porta,
arrombando-a. Quando a porta abriu, devido ao excesso de força, ela bateu na
parede atrás da gente, ele se assustou e se virou rapidamente, pensando ser um
contra ataque e colocou uma enorme arma na minha cara e eu, “calma, calma! Foi
a porta, não atire” (nada fácil lidar com profissionais treinados...!). Continuamos
nossa ronda e nada de acharmos a origem do som, quando nos demos conta que o ele
vinha da padaria ao lado, era a máquina de pão virando a massa para o padeiro
fazer pão.
17 dezembro 2011
Short Story XXI - Sanguessugas
Devem estar pensando que sanguessugas são pessoas que gostam
de aproveitar e abusar das pessoas boas, né? Mas não, erraram. Estou falando dos
bichinhos gosmentos e pretos que grudam na pele quando damos o mole de tomarmos
banho onde eles estão e, conforme ela vai sugando nosso sangue, vai crescendo,
crescendo, crescendo, como se fosse uma bexiga de ar, mas com sangue. Quando
moleques nós criávamos muitos bichos, o que pintasse estávamos criando, até
pintos (hehe). Meu pai adorava papagaios e micos e sempre tínhamos um deles ou ambos
em casa. Micos são terríveis, tem uns dentes que parecem navalhas e era só dar
mole e lá ia um pedaço do dedo; papagaio era diferente, esmagava o dedo. O bico
de um papagaio e capaz de quebrar pedra e quando ele pegava nosso dedo...! Só a
graça! Não soltava de jeito nenhum, apertava até furar e sair sangue. Um dos
meus irmãos tinha uma grande criação de ratos, isso mesmo, ratos, dos brancos.
Aquilo multiplicava igual a ratos (rs) e nem sei o que ele fazia com aquele
monte de ratos. Tinha outro que adorava cachorros, que ele mandava lamber suas
perebas das pernas (tínhamos muitas perebas). Imagine, né? E se pegasse raiva?
Tô falando do cachorro, coitado! (rs). Lembro uma cadela gordinha que ele usava
para esses fins, chamava-se bolinha, mas ele tinha muitos outros. Uma vez, outro
irmão, (estou falando de um terceiro diferente, tá? Tenha oito!) trouxe de SP um dobermann.
Era preto e eu que cuidava dele quando ele não estava. Eu levava feijão com
leite, misturados. Nunca entendi porque aquele animal comia aquilo e também levava
angu ou canjiquinha. Nessa época não se falava em ração, cachorro comia nossa
comida mesmo. Esse cachorro mordeu um monte de amigos meus e também minha irmã, sempre na altura
do pescoço, o bicho era predador, queria a jugular. Nesse mundo animal tinha
pena da minha mãe, coitada, mas ela também tinha seus bichos, eram os patos e
as galinhas do vizinho. Nossa casa não tinha quintal e ela tirava uma casquinha
dos animais do vizinho. Ela adorava aqueles animais e sempre cuidava deles,
dando comida e acompanhando seu dia a dia, seus filhotes quando nasciam etc;
até minha filha deu comida para esses patos, chegava e papai já lhe dava um
grande pão molhado para ela dar para eles. Eu criava preás. Preá é como um rato
grande e também se multiplicava como ele. Comecei com um casal e em pouco tempo
tinha vinte e cheguei a ter mais de sessenta. Elas tinham de comer e para isso
eu tinha de colher capim nos terrenos baldios da minha vizinhança. Era muito
chato fazer isso, mas quem mandou ter preás, né? Quando eles começavam a
gritar, minha mãe dizia: “tem de ir pegar capim para os bichos!” e lá ia eu. O
capim que elas gostavam era um que cresciam em lugares pantanosos e haviam
muitos onde hoje é o marimbondo, um “lindo” bairro da minha cidade (onde eu
moro). Esses terrenos pantanosos eram interessantes, pois criavam uma camada,
como se fosse um tapete, em cima da água, e nós andávamos nesse capim
tapete, que era mole e se mexia quando passeávamos nele. Um dia fui
colher meu capim e estava num desses lugares moles, quando minha perna afundou
na agua. A principio não me incomodei e continuei cortando meu capim e, quando
concluí minha colheita, saí do terreno e fui amarrar meu fardo de capim para
levar para minha preás, quando tive a surpresa: preso em minhas pernas haviam
umas vinte sanguessugas grudadas e chupando meu sangue. Já tiraram sanguessuga
da pele? Pois é, não puxar se não ela pode arrebentar. Você tem de tira-las
cuidadosamente, passando uma folha entre a pele e ela até soltar o ferrão.
Fiquei mais de uma hora tirando sanguessuga das minhas pernas. Devem ter sugado
um litro do meu sangue.
06 dezembro 2011
Short Story XX - Capitão
Bem, falar da minha mãe é fácil e esse post irá recordar uma
das suas interessantes facetas. Minha mãe era especial e esse “especial” era o
que ela era, não apenas o que representava. Sei que todas as mães são especiais,
nem tenho a pretensão de compara-la, mas essa era diferente, sempre tinha uma
palavra ou um conselho com profunda simplicidade (ou simplicidade profunda), que clareava uma situação que
se vivia e ajudava a vencer momentos difíceis. Tinha suas frases ou provérbios,
como: “o coração é meu, pode sofrer; o rosto é do próximo, tem de sorrir”,
“cheguei até aqui, termino de chegar”, “não tem tu, vai tu mesmo”, “buscai ao
Senhor enquanto se pode achar”, “ruim com ele, pior sem ele” e assim ia, eram
muitas e muitas, mas hoje não vamos falar disso e sim sobre “arte culinária”, quero
dizer, uma refeição (se é que posso chamar desse nome) que ela fazia para nós
crianças e era o manjar dos deuses, uma grande festa. Eu achava muito, muito
bom e adorava quando ela preparava para nós, mas hoje eu entendo que era
gostoso porque ela estava com a gente, fazendo e nos dando para comer ou na mão
ou diretamente na boca e não uma comida elaborada. O nome dessa iguaria? Capitão.
Para os que não tiveram a oportunidade de viver essa época ou saboreá-lo, vou tentar
explicar. Primeiramente não sei a origem desse nome, até hoje não entendo
porque se chamava assim, e acho que era preparado com as sobras de comidas que
havia na cozinha na hora. Misturava-se o que havia tipo, arroz, feijão, carne,
farinha (realmente não faço ideia do que havia nesse prato, lembro do sabor e
do momento) e era uma delícia. Era preparado e oferecido por ela, como já
disse, na mão (tipo os indianos), não havia talheres, fazíamos uma rodinha e
ela ia preparando os bolinhos e oferecendo para gente. Diria que era o formato
do sushi da culinária japonesa, mas sem a cobertura de peixe ou algas, só o
bolinho. Era uma festa, aquela turma toda saboreando aquele alimento que só ela
sabia fazer. Tenho certeza de que quem teve a oportunidade de comer adorava
(não sei se algum neto provou). Hoje nosso mundo evoluiu e é tudo muito
asséptico, limpo, lavado, quando criança, não. Acho que por isso ninguém ficava
doente à toa, tínhamos muitos anticorpos.
02 dezembro 2011
Short Story XIX - Parati
![]() |
| O Cachadaço (piscina natural), em Trindade, Parati. |
A família da minha esposa tem uma ligação forte com o sul do
Estado do Rio: Ilha Grande, Angra, Parati e Ubatuba, SP, pois são originários
dessas bandas e, de vez em quando, vamos visita-los e ver como estão indo. Até
aí tudo bem, gosto do lugar e mais ainda das pessoas que vamos ver, o problema
é a viagem. Não há uma vez que façamos essa viagem que não ocorra um problema e sério. Uma vez nós enguiçamos, de madrugada, em plena Rio Santos (quem
conhece pode imaginar). Foi terrível! Estava com minha sogra e crianças
pequenas e ficamos com um carro novo, enguiçado, nas trevas da rodovia. Com
muita dificuldade conseguimos chegar a uma localidade e fomos procurar um lugar
para pernoitar e nada! Tudo cheio e a família teve de passar a noite de favor na varanda de
uma pousada, esperando o dia amanhecer e eu na porta duma oficina para tentar
consertar o carro. Claro que se o mecânico conseguisse conserta-lo não seria uma boa história,
o mecânico da região simplesmente não conseguiu encontrar o defeito e precisei
reboca-lo para casa e a família voltou de ônibus. Numa outra vez íamos
tranquilos, estava estranhando, quando, do nada, simplesmente a roda dum
ônibus, que vinha em nossa direção se soltou. Conseguem imaginar? Era a roda
traseira, aquela que tem dois pneus conjugados, passando a centímetros do nosso
carro. Foi terrível 2! Tem mais, numa outra viagem foi um motociclista,
coitado, que não tinha nada a ver com minha sina, mas que vinha em sentido
contrário ao nosso. Eu “tentava” ultrapassar um caminhão nas estreitas e cheias
de curvas, ♪ Estrada de Santos ♫ (Roberto Carlos), mas o motor não tinha
potência pra concluir a ultrapassagem e eu via vir a moto em minha direção. O
que pude fazer foi piscar o farol para ele, tentando mostrar que eu não tinha
como sair da onde eu estava, e assim ele desviar de mim. O coitado não
entendeu, ou vinha muito rápido, e só pode afastar um pouco para a esquerda e
passar a centímetros do meu carro. Foi horrível 3! Passei o resto da viagem
imaginando se eu tivesse colidido com o mesmo, seria morte dos dois ocupantes e
mais estragos em quem estava comigo. E assim vai, sempre acontece algo, tem a
vez que um pneu dianteiro estourou a 100 km/h (primeira e única vez que isso
ocorreu comigo), ou a vez que o carro se recusou a subir uma ladeira, obrigando
à bisavó da minha esposa soltar e subir o morro à pé, tem a vez que eu
“decolei” da pista, voando e quicando no canteiro central, quebrando minhas
quatro rodas de liga (agradeço sempre a Deus por mais esse livramento), tem a
vez que minha esposa perdeu R$ 1.500 nos radares, tem a vez que o carro não
queria subir o “Deus me livre!”(“pequena ladeira” da localidade), tenho até
medo quando penso que vou para lá, pois sempre acontece alguma coisa nada boa.
A última foi com a minha filha. Foi só sair de lá para virmos embora e ela começou
a passar mal, mas não foi uma indisposiçãozinha, realmente ela passou muito,
muito mal. Acho que paramos umas 14 vezes até conseguir chegar, numa viagem que
demorou muitas mais horas além da prevista. Ela veio mal de Parati até o Rio,
quase vomitou as estranhas, viu a morte, muito difícil. Foi terrível 4!
Passarei esse natal lá, depois conto essa outra história.
30 novembro 2011
Short Story XVIII - Trem
Perto de minha casa havia uma linha de trem. Hoje foi tudo
destruído e algumas partes ocupadas por barracos, virando uma comprida favela em forma de
charuto. Dizem que vão construir um metrô nesse espaço, mas acho que vou morrer
sem ver, quem sabe meus netos. Mas quando criança nós usávamos esse trem para
nos locomover de verdade. Eram trens como os dos filmes do velho oeste, revestidos
de madeira, bancos que virava o encosto e com aquela varandinha entre os
vagões, onde, nos filmes, os bandidos subiam, vindo dos cavalos a galope. Uma vez
nós fomos a uma localidade e eu e a molecada vínhamos pendurados nas escadas
dessa citada sacada, aproveitando a vista e o ar fresco. Eu passava o pé na
vegetação que passava rente ao trem, era divertido. Estava eu nessa
brincadeira quando alguém me chamou e eu me virei para atender, quando vi
passar colado ao trem uma mureta de concreto duma ponte enorme. Se eu não tivesse sido
chamada teria “chutado” aquele concreto, ocultado pelo mato e talvez até caído
do trem. Depois do susto parei com a brincadeira e pouco tempo depois veio uma
pessoa carregada do vagão que estava atrás do meu e perguntei: “que houve?” E
ele respondeu, “chutei a mureta duma ponte”. Coitado, quebrou o pé (como diz o
ditado, “antes ele do que eu” hehe). Mas a história de hoje é sobre as caronas
que pegávamos nesse velho trem. Como já contei, meu pai era pastor e sempre
estávamos na igreja, fazendo bagunça, claro, e esse trem passava em frente da
onde ficávamos e onde havia uma estação. Havia um horário à noite, por volta das 20
horas, e sempre íamos pegar uma carona nele. Na verdade nem era carona, o que fazíamos era ficar agarrados
nos estribos, pendurados e quando a velocidade ia aumentando nós soltávamos. Coisa boba de
crianças, que adorávamos fazer. Um dia fui eu estava na minha carona, mas outros
moleques estavam agarrados com eu não me deram condições de soltar a tempo e o trem foi
aumentando a velocidade, ficando então impossível pular, quando fui agarrado
pelos colarinhos e puxado para dentro do trem: era o fiscal. Fiscal era como um
cobrador. Tinha um alicate na mão e ia furando as passagens dos pagantes e ele
falou: “passagem”. Que passagem? Não tinha passagem nenhuma, então ele disse, “então
vamos para a estação terminal e vai ser levado para o Juizado de Menores”.
Juizado de Menores era o nosso terror. Nossa mãe dizia que eles arrancavam as unhas
das crianças com alicates, batiam, sufocavam e torturavam. Tinha pavor de
passar em frente a um e lá estava eu sendo levado pro "inferno", pensei eu. O
homem rude não me largava, sentamos e ele continuava me segurando firmemente,
até que o trem parou na próxima estação. Quando o trem começou a se mover eu
falei para ele: “posso ir ao banheiro fazer xixi?” e ele respondeu, “certo, mas
vou com você” e veio me seguindo e ficou me olhando pela porta aberta. Os
banheiros de trem dessa época eram interessantes, na verdade era um vaso
sanitário com um buraco embaixo e os números 1 e 2 caiam direto na linha férrea
(estranho, não? Ainda bem que o mundo evoluiu). Mas voltando, o trem se movia e
vi a janela do banheiro aberta, não pensei duas vezes, me joguei pela janela,
saltando do trem em movimento e já caí com as pernas correndo (igual a dos
personagens dos desenhos animado). Quando bati no chão já saí correndo como um
desesperado e me afastando rapidamente do trem (o que o medo não faz, me joguei
de uns 3 metros de altura e caí em pé e já correndo!). Já longe olhei para o trem
e vi o cobrador fazendo sinais “educados” para mim e me “elogiando” com lindas imprecações. Nunca mais
peguei carona. Voltei à pé e fui recebido como “amor e carinho” pela molecada.
Naquela época não tinha esse negócio de bullying, respeito, e mundo
politicamente correto: o pau cantava mesmo. A molecada me descascou, sofri.
24 novembro 2011
Short Story XVII - Coleções
Bem, nessas histórias comemorativas do meu meio século de vida, não
poderia deixar de contar uma faceta dos meus tempos de infância: coleções.
Quando moleque eu tinha coleção de tudo, hoje quase não vemos mais esse hábito
junto às crianças, comum na era sem TV, sem Games, sem Internet, sem Facebook, sem MSN
etc. Começarei pela mais nobre das minhas coleções: Selos. Ainda tenho uma
grande coleção de selos e daqui a uns 200 anos vão valer uma grana (meus tataranetos
quem dirão). Era dura a minha vida de colecionador de selos, porque muitos deles
precisavam ser comprados. Para quem não é do ramo vou explicar. Existem dois
tipos de selos, os comemorativos e os ordinários. Os ordinários são aqueles
apenas com um valor impresso e servem mesmo para enviar cartas, de pouco valor para se colecionar,
e os comemorativos, como diz o nome, era para comemorar ou lembrar alguém ou um fato histórico e esses podem valer mais, se for raro. Tenho coleções
completas de selos de vários anos, sempre uma unidade de cada, que eu comprava
na agência filatélica dos correios em Niterói. O correto é colecionar o que é chamado quadra, ou quatro selos agrupados, mas eu só podia comprar um e olhe
lá (tinha uns que eram muito, muito caros para mim). Eu também tinha coleção de tampas
metálicas de garrafa de refrigerante (hoje quase não tem tampa assim). Eram
tampas de metal com figuras estampadas na parte de dentro e que iam para um
álbum até ser completado. Também colecionava figurinhas de chicletes, que também
tinha um álbum com muitas páginas, muito legal, e tinha as coleções que só eu
tinha, como a de lápis, isso mesmo, lápis. Cheguei a ter mais de 200 tipos
diferentes de lápis. Colecionava borrachas escolares, essas eram mais raras, coleção de
perfumes, na verdade vidros vazios de perfumes, coleção de cartões postais
(tinha uma pilha enorme), coleção de moedas antigas (no passado a série de
moedas duravam uns três anos, assim era fácil ter moedas do Brasil “antigas”:
Réis, Cruzeiro, Cruzeiro Novo, etc), coleção de papéis de carta, coleção de
bolas de gude (as coloridas chamávamos de “corinho”, seriam hoje os olhos de
gatos), fichas de ônibus (as passagens tinham diversos valores, de acordo com o
percurso, e eram dadas como recibo fichas de plástico coloridas que nós desviávamos dos ônibus), gibis (como
eu gostava! Comprava usado na feira, pois eram mais baratos), chaveiros, palitos de picolés (catávamos na rua e fazíamos esculturas com eles), caixinhas de fósforos e por fim meus
“preciosos”, os mais queridos, meus álbuns de figurinhas. Completeis alguns, entre eles dois especiais,
Ciências, que era um álbum cultural, com as grandes descobertas da ciência da
época (eu o tenho até hoje, um pouco carcomidos por cupins). Era um álbum educativo,
com fotos ou desenhos e a descrição de cada uma (muito legal) e por fim o meu álbum de figurinhas da Disney. Esse eu sempre cuidei com um carinho todo especial,
afinal quando os completei ainda estudava no Tarcísio Bueno! O álbum da Disney,
como todos, tinha um mercado paralelo de venda e troca de figurinha e tinha a
mais difícil de todas: a Baleia, do filme Pinóquio. Um dia comprei um saquinho
(não podia comprar muitos, ok?) e quando abri veio três figurinhas repetidas,
uma saco, certo? Não, eram três baleias num saquinho só! Fiquei rico
revendendo-as. O tempo passou e a minha cunhada pediu emprestado meu álbum da Disney e
meu coração desmoronou. O tempo foi passando, passando e nada dela devolver e
por fim desisti, afinal já haviam se passado 10 anos! Um
dia eu fui à casa do meu sogro e para minha surpresa ela devolveu meu querido
álbum e intacto! Foi o melhor dia da minha vida de colecionador. Hoje não
empresto mais, não adianta pedir, no máximo olhar, e na minha mão (hehe).
21 novembro 2011
Short Story XVI - Pedrinhas
Quando moleque vivíamos na casa dos amigos, éramos aquelas
crianças chatas, inconvenientes, que todos evitam e falam mal, davam um dedinho e a gente pegava o braço todo, mas fazer o que? Nossa casa não tinha nada! (Éramos
8 + os pais + as avós, numa casa de dois quartos. Depois ela cresceu, mas
quando moleques era dessa forma). Assim só restava a rua e casa dos outros, éramos
chamados televizinhos (imagine porque, né? Isso mesmo, não tínhamos TV,
nunca tivemos. Minha primeira TV foi quando eu me casei). Alguns vizinhos eram
legais e deixavam a gente assistir um pouquinho de TV, abrindo até a janela, e
nós ficávamos pendurados nela ou em cima dos muros. Outros fechavam portas e janelas na
nossa cara, ou escondiam que tinham TV (eu até entendo, ninguém merecia
“aquilo”). Um dia estava na casa de um desses coitados e fui convidado a fazer uma pesca de arrastão na Praia das Pedrinhas, que
ficava “próximo” da casa dele (na verdade uns três quilômetros, que fazíamos
andando com o arrastão nas costas e mais três para voltar). Como o nome diz,
essa praia tinha muitas e muitas pedrinhas que cortavam os nossos pés, mas
praia de areia mesmo era muito pouca, bastava entrar um pouco na água e
encontrávamos lama, muita lama, mas isso não importava, nós queríamos pegar uns siris ou, quem
sabe, uns camarões para saborear naquele nublado dia (diziam que nos dias assim
dava mais). Fizemos diversos arrastos, mas a maré não estava pra peixe, ou
siri, ou camarão, até que conseguimos pegar um caranguejo azul enorme. Meu
amigo, na ânsia de não perdê-lo, visto ser o único conseguido até aquele
momento, meteu a mão nele. Pra que! O danado agarrou no dedão da sua mão e não
soltava de jeito nenhum, o sangue saía borbulhando do seu dedo, mas o bicho não
abria a garra. Tivemos de quebra-la com uma pedra para pode liberta-lo. Eu tinha uns doze anos, ambicioso e acreditava que poderia haver algo além
daquele siri azul naquelas “límpidas” águas daquela praia bem ao fundo da
Baía da Guanabara e continuamos arrastando. Distraídos fomos indo cada vez pra
dentro da água, quando a maré começou a encher e não nos apercebermos. De
repente eu tinha água até o nariz e lama até o joelho; atolado pela lama não
conseguia sair para respirar. Lutava bravamente, tentando escapar dos dois
inimigos, quando me agarrei à madeira do arrastão, usando-o como alavanca e consegui
desatolar uma perna, aí mergulhei e usei a perna solta deitada como base no fundo do mar para
desatolar a segunda perna e assim conseguir tirar a cabeça para fora da água e
pegar um pouco de ar. Foi brabo, mas consegui sair daquele atoleiro molhado e
sem nada.
18 novembro 2011
Short Story XV - Gasolina
Como dizia minha mãe, vivíamos “soltos pelos pastos” (era
assim que ser referia à forma como fomos criados, ou seja, na rua). Lembro
muito dos seus gritos nos chamando lá de casa: "Lieeeeziooo”, “Lieeeeeelllllllll”, “Dileeeeeiiiiii”, para voltarmos para casa (o grito ia longe, parecia uma araponga)
e era assim que éramos chamados, ou nos chamávamos, pois, apesar do nome de todos os 8
filhos começarem com a letra “E”’, não pronunciávamos essa letra (que ironia,
não?), era: Dilane, Dilei, Liel, Liézio, Lezer, Deí etc. Nosso parque de
diversões era a rua e sempre tínhamos muita coisa pra fazer nela. Eram muitas as
brincadeiras, como: Pique (todos conhecem), com suas diversas variações, “pique
tá”, “pique ajuda”, “pique alto”, “pique baixo”, “pique cola” etc; garrafão,
esse vou ter de explicar um pouco. Garrafão, como o nome diz, era uma imensa vasilha,
tipo uma garrafa gigante, que desenhávamos na rua de barro. Era desenhado com
os pés, raspando-o no chão, ou riscado com uma vara. Era tipo um pique, só que
acontecia em volta dessa figura desenhada. As regras eram: um escolhido tinha de pegar os incautos, ou os mais arrojados,
e quando pego ou cometesse alguma infração, era espancado até conseguir
alcançar um ponto definido previamente (normalmente bem longe pra apanhar
muito). Era possível entrar e sair do garrafão, mas somente pela boca, porém os
perseguidos podiam sair pelo fundo do garrafão (num pé só), o perseguidor, não. Os
perseguidos podiam “cortar” de um lado ao outro dessa figura, só que de novo apenas com um pé (pépé, como chamávamos). Se colocasse os dois pés ou mesmo tocasse o chão, pisar na linha, ou ser pego, o pau cantava até conseguir alcançar o
ponto definido, agora devidamente dificultado pelos demais para apanhar mais,
obstruindo o caminho. Divertido, bati e apanhei muito brincando de garrafão.
Tinha a “Bandeirinha”, que muitos conhecem, queimado (comum), amarelinha, pião, bola de gude (búlica, triângulo, mata mata, à vera, à brinca e outros tipos), cafifa etc,
mas havia uma diversão adicional para a garotada da vizinhança, um velho pequeno
caminhão que estava enguiçado a anos próximo à nossa casa. Lá nos brincávamos
de dirigir no seu velho e grande volante, pulávamos nos bancos de palha e molas
cheios de pulgas e na carroceria quase sempre tinha um “evento”. Um dia tivemos
uma grande ideia, tirar gasolina do velho tanque para fazermos uma fogueira.
Arrumamos uma garrafa de vidro e uma mangueira e fomos à luta. Enfiamos a
borracha no tanque e ficamos tentando tirar o precioso combustível, mas não
saía, estava difícil. Tentava um, tentava outro, mas todos moleques e burros, nada
de conseguir, aí eu radicalizei, dei uma grande sugada e um liquido marrom e
fedorento saiu, mas como puxei com forca excessiva não consegui conte-lo e
engoli uma grande quantidade dela, foi terrível, a grande golada entrou
garganta a dentro queimando e caiu pesado no estomago. Achei que ia vomitar,
fiquei desesperado, mas nada de conseguir expulsar aquele troço de dentro de
mim. Com minha “super sugada” o líquido continuou a sair e pude observar melhor
o que eu engoli, não havia mais gasolina naquele tanque, apenas restos imundos de
combustíveis, agua e ferrugem: sobrevivi.
14 novembro 2011
Short Story XIV - Pindamonhangaba
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| Onde está Wally (eu)? |
Estudei num colégio interno, na verdade um seminário, por
dois anos, ou quase dois anos, pois fui também quase convidado a sair faltando
dois meses para me formar. Quase porque meu pai foi me buscar do “Egito” e do
seu governador, conhecido por Faraó (porque judiava do povo de Deus). Até hoje
tenho dúvida se o período que eu passei por lá foi bom ou foi ruim para mim (quase
sempre acho que foi ruim, mas pode ser que tenha sido bom, vai saber). Era um
lugar feito para te humilhar e te fazer se sentir um lixo, ou, como diziam, “barro amassado
na mão de um oleiro” e assim “Deus poder operar” (vai entender). Eu procurava,
dentro de um limite muito pequeno, me integrar, mas não era bem aceito pela
“comunidade”, era mal visto (injustamente, há de ser registrado. rs). Lembro de
uma vez que um deles, oriundo da região norte, onde trabalhava nos seringais, muito
forte, brincava de agarrar e brigar com outros alunos e tentei entrar na
brincadeira. Pra quê, na mesma hora ele recuou com medo de mim, do alto dos
meus 59 quilos e 1,80 metros (vai entender 2). Tinha uns amigos, tão
sorumbáticos e taciturnos como eu (blog é cultura), e fazíamos tipo uma gangue dos
alijados, dos desenquadrados e dos revoltados (Pelo menos éramos vistos assim - vai entender 3). Eu não tinha muitos motivos para sorrir e assim era o meu dia,
de trabalho e estudo, sonhando em ir em casa uma vez por mês. Neste Seminário, apesar
de pago, éramos obrigados a trabalhar em regime de escala, seja lavando os
banheiros, capinando, cuidando da horta, lavando panelões, cuidando da cozinha,
trabalhando de graça no sítio particular do Faraó, enterrando vaca morta (no
mesmo sítio), arrancando mato de um pasto com a mão (para não estragar o capim,
dizia sabe quem: Faraó!) etc. A comida era racionada e era isso e um capítulo realmente
degradante e humilhante de ver (graças a Deus não estava nessa). Uma vez por
semana era servido ovo e era uma guerra. Era um dia especial e a fila começava
cedo (tipo um show que as pessoas madrugam) e estes primeiros que pegavam o seu bandejão iam
comer em pé, de novo na fila do rango, para pegar algum resto de ovo que tenha sobrado
(ou não) e era apenas a metade de um ovo! O que tinha em fartura eram repolho e
chá. Diziam na rádio corredor que havia alguma coisa naquele chá, mas nunca foi
provado, mas achávamos estranho tanto chá, não havia café, e éramos
incentivados a toma-lo, o que nos deixava ainda mais desconfiados. O café da
manhã era uma grande caneca de chá com uns pingos de leite para “sujar” o chá
ou o leite. O leite era muito, muito racionado e não adiantava voltar para a
fila tentando pegar mais um pouco do resto, não davam. A comida era ruim, muito ruim,
feita pelos próprios estudantes e os alunos mais duros dava dó, ou comiam
aquilo ou morriam de fome. Teve um que foi internado por inanição, porque
simplesmente não conseguia comer aquela gororoba que chamavam de comida e quem
não tinha um dinheirinho pra comprar um pão velho, só restava a fome ou a
morte. Eu era duro, mas nem tanto, fazia uma vaquinha com meus amigos
sorumbáticos e comprávamos um litro de leite e colocava para esquentar num “rabo
quente” e bebíamos no intervalo das aulas puro ou com groselha. Uma vez comprei
uma garrafa de groselha só para mim e guardei no meu quarto, mas fui observando que o nível
caía, mesmo eu não bebendo, e desconfiei que estava recebendo a visita do
alheio, então tive uma ideia, peguei um vidro mercúrio cromo, dilui em água,
coloquei na garrafa vazia de groselha e deixei aonde eu a guardava. Quando
voltei da aula fui olhar minha "groselha" e para minha surpresa a garrafa estava
pela metade! O amigo do alheio tinha me
visitado enquanto estava em aula bebido mercúrio cromo! Foi terrível, pensei
que ele fosse morrer, mas não, descobri que beber mercúrio cromo não mata, pelo
menos um eu sei que um tá bem vivo.
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