20 janeiro 2016

Diálogo com o FB - XVIII - Umbral




Sabe FB, tô “xatiado”. Estou passando um momento muito difícil, de muita dor e sofrimento, de ser desconsiderado, e isso não é bom. É um sentimento de não estar nem lá, nem cá, como em cima de um muro, no “umbral”. Umbral, aprendi com um amigo espírita, é para onde vão os espíritas suicidas. Nós compartilhávamos nossas crenças e as confrontavas e uma vez ele me disse que o pior pecado que uma pessoa espírita pode cometer é o suicídio. Segundo ele me ensinou, o suicida espírita fica num limbo, nem no céu, nem no inferno, palavras minhas, não sei muito bem, ficam lá, em penitência, sofrendo pra caramba, no nada,eternamente. Pois bem, é o meu caso, a parte do nem lá, nem cá, OK?

Sei que deve estar se preocupando comigo, afinal me considera muito, ou será que não? Mas meu momento é realmente complicado, pois sou um pré idoso, ou seja, sou velho o suficiente para sentir dores nas pernas ao viajar em pé na barca, depois de caminhar da Cinelândia à Praça XV, mas não o suficiente para sentar numa das cadeiras amarelas, reservada para as prioridade; não tenho mais saúde para ficar numa longa fila do supermercado, farmácia ou banco, mas não o suficiente para ficar na fila menor, a da prioridade; duro, sem dinheiro sobrando, como um bom velho, que mal pode pagar suas despesas e passagens, mas não tenho direito ao Vale Idoso ou comprar meus remédios mais em conta na farmácia popular do governo. Sabe FB, acho isso uma tremenda injustiça. Vejo velhos melhores que eu, um até me ultrapassou quando caminhava, passando minha frente na barca, sentando nas cadeiras amarelas e usando o Vale idoso e eu, que estou muito pior que eles, no túnel, a caminho da luz, jogado às traças. Será que ninguém está vendo isso? Pode isso Arnaldo?

Na minha opinião a prioridade deveria considerar a condição física e mental da pessoa, não somente a idade, pois a velhice está na cabeça das pessoas, e na minha já deu. Eu não tenho condições de ficar em pé, meu joelho dói; não dá pra eu ficar na fila do mercado, minhas costas dói; fico morto na minha caminhada diária do trabalho, quase não sinto as pernas; me sinto cansado quando termina meu expediente e muito mais acabado que os velhos “com prioridade”, e pra mim nada! Sabe FB deveria haver uma legislação que desse ao menos alguns direitos para os pré idosos ou velhos de espírito, meu caso. Deveria sim ter direito uma uma pré vaga de estacionamento perto da entrada do mercado, nem tão perto, como a dos idosos de carteirinha, mas não tão longe como hoje; um desconto na passagem para nós os pré idosos, já que gratuidade não tenho direito; uma cadeira, se não amarela, pelo menos magenta, para os pré idoso, se não daqui a pouco morro, o túnel a caminho da luz está cada vez maior, me sugando, e não vou desfrutar nenhum desses privilégios.

Diálogo com o FB - XVII - Pensando




Olá, FB, hoje estou pensativo, então se segura.

Penso que eu admiro pessoas de visão. Elas sonham, imaginam o que não existe, creem que é possível e lutam para torná-lo realidade. Elas, mesmo quando fracassaram, inspiram, aumentam o campo de visão dos que tem o prazer de ouvi-las, de conviver com elas ou de participar do projeto. Também penso, como as pessoas se sentem quando tudo que elas creram, lutaram, defenderam, até se desentenderam com parentes e amigos, desmorona? Não deve ser fácil. Por fim penso: de que adianta você ter um cargo, uma posição, chegar ao topo e não saber o que fazer, não ter o projeto, não ter a visão, não ter o sonho, quando muito um idealismo vazio? De que adianta o poder pelo poder, o poder como um fim em si mesmo, de que vale isso?

Agora vemos usar esses pensamentos na situação atual do Brasil. Primeiro vamos nos colocar no lugar das pessoas que tinham a visão de um estado mais justo, onde os mais necessitados seriam as prioridades, onde a escola seria de qualidade, onde os trabalhadores teriam voz e ele veem milhares de desempregados, estaleiros demitindo e fechando no Rio Grande do Sul, Pernambuco e no Rio de Janeiro. Cidades como Itaboraí e Macaé afundando. O Estado do Rio à míngua. Escolas, universidades e hospitais sem limpeza, pois os trabalhadores não recebem seus salários. Servidores públicos em greve, sabendo que não há recursos para aumento de salários, mas mesmo assim ficam em casa, recebendo, claro. O Rio Grande do Sul é uma desgraça à parte, sem comentário, nem para o salário o estado tem. Por outro lado, vemos tantos e tantos “companheiros” pendurados no governo, mamando nas tetas ex gordas do estado, recebendo salários às vezes absurdos e não largam o osso por nada. Também vemos na periferia a população trabalhadora tendo de conviver com a violência, com filhos vulneráveis a influências negativas da droga e da violência, pagando a conta de políticos míopes, sem visão, que chegaram ao poder, pelo poder, pensando apenas em se perpetuar nele, sem saber conduzir o estado, sem literalmente saber o que fazer. A chave de ouro dessa situação é o orçamento encaminhando pelo governo e, para surpresa geral, “pois nunca antes na história desse país aconteceu”, o pobre coitado prevê um déficit. Como pode isso? O orçamento elaborado pelo governo demonstra que ele não tem dinheiro para pagar as suas despesas? É isso mesmo? Me belisque, por favor, isso é realmente surreal. Para mim isso é abrir mão de governar, de ser governo, de comandar, de conduzir a nação, de ter uma visão, de nos apresentar um sonho, é o fim.

Para onde iremos? Atribui-se a Martin Luther King uma frase de valor inquestionável: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Até quando os bons ficarão calados, achando que dinheiro do governo não é de ninguém, quando na verdade é de todos nós? Até quando aceitarão que se paguem salários a médicos fantasmas, que acha que cuidar do povo que paga seu salário é favor? Até quando aceitarão esses políticos sem visão, sem projeto, que querem o poder apenas para enriquecer? Até quando aceitaremos nos corromper e corromper para nos beneficiarmos? Quando entenderemos e daremos um basta a pequenos desvios que contaminam a sociedade e refletem nos políticos? Até quando deixaremos de ser medíocre e vamos colocar como meta nada menos que a integridade? Para mim é simples, é conta de padeiro, quando formos íntegros exigiremos integridade, quando formos honestos, exigiremos honestidade.

Bem, tenho de parar, o post está ficando muito grande, vou perder meu leitor, depois eu continuo. Além do mais, sempre que escrevo assim sou “injustamente” taxado de azedo, mal-humorado e coisas assim, mas é o que temos para hoje. Para finalizar deixo uma frase do ex presidente do Uruguai, Mujica: “Quando o afã de fazer dinheiro se mete dentro da política, isso mata”.

Diálogo com o FB - XVI - Torcedor

Sabe FB, sou um torcedor vagabundo. Nunca sei contra quem meu time irá jogar, nem o nome dos jogadores. Acho que só conheço um jogador do meu time (minto, entrou um novo dentuço) e acho que sei quem é o goleiro, o resto não faço a mínima ideia. Sobre a posição no campeonato, se tem novas contratações, quem é o presidente etc, tô mais por fora que bunda de índio. Sabia quem era o técnico, o atual nunca ouvi falar, sei que tem um sobrenome estranho, mas não imagino quem seja. Às vezes me pergunto porque eu tenho um time, sinceramente não sei. Acho que é uma demanda da sociedade porque sempre perguntam, “qual o seu time?” ou o velho trocadilho “que time é teu?” Talvez para ter assunto no elevador, me relacionar com estranhos na rua e conhecidos ou fazer amigos. Aliás, graças a um amigo estou sempre informado, ele sabe tudo e me mantem informado sobre o meu e o seu time, na verdade acho que eu torço para o time dele de tanto que acompanho, #SóQueNão, torço pra cair, pra ter uma crise, pra ter um confusão qualquer, acho que me divirto mais com isso. Brinco “agora cai” e ele me responde “time grande não cai” e a conversa rola.

Nas minhas últimas férias usei a camisa do meu time, camisa cara, paguei R$ 39,90 em 10x no outlet perto de casa, oficial, tá! (acho que encalhou muita camisa 2012) e foi a segunda vez que eu a usei. Achei super interessante a experiência, pois a camisa abriu canais de comunicação com as pessoas, eu falei com gente que nunca imaginei, recebi “saudações” de estranhos, a camisa era elogiada, ouvi causos, bati papo com um barqueiro num passeio na praia, fiquei sabendo que era freguês de A ou batia em B, ouvi a história da camisa e do time, enfim consegui se relacionar com muita gente diferente e gostei muito. Ano que vem usarei novamente, espero não engordar.

Mas existe um outro lado do torcedor que não gosto, é quando torcer sai de um ambiente saudável e amigável e vai para ofensas às pessoas ou ao time do próximo. Penso que tem de haver respeito, tem de haver um limite. Tenho amigos com quem eu nunca falo sobre futebol, pois eles são apaixonados, parece não existir nada mais importante nesse mundo que seu time, assim não dá, mantenho distância, pois a tênue linha pode ser ultrapassada e como eu me conheço procuro manter uma distância segura. Futebol mexe com os instintos mais selvagens de alguns seres humanos, coisa insana mesmo, um “amor” desenfreado, que beira a loucura em alguns e acho que isso não é bom.

Então FB, seu eu pudesse dar um conselho eu diria, entre optar por ser um torcedor vagabundo como eu ou fanático como outros, escolha as pessoas. Digo, pessoas são as coisas mais importante e não vale à pena ofender, magoar ou perder um amigo, que é tão difícil de conseguir, por um time. Procure se divertir, mas não deixe a raiva superar o limite do aceitável, mantenha a coisa no campo gostoso da rivalidade. Sim, rivalidade é uma coisa boa quando se mantém nos limites do respeito e consideração. Nenhum time é grande se não tiver um adversário à altura, portanto o adversário tem seu valor, se for ganhar de um cachorro morto que graça tem, né? Então pense nisso.

Diálogo com o FB - XV - Triste


Hoje não vou encher seu saco, vou falar pouco, pois tenho dito demais, estou triste, FB. Não por mim, mas por uma coluna que li no jornal: uma “mulher, linda, inteligente, culta e bem resolvida”, descrição dela mesma, discorria sobre sua vida. Casada há trinta anos, com um marido que, quando jovem, era o príncipe encantado que toda mulher sonhava ter. Ele se tornou bem sucedido, mas acabaram se distanciando. Ela então diz que foi se redescobrir, viver a vida, ter amantes mais jovens, que a fazia sentir amada. Não se separou, continuava com o marido que ela agora dizia ser insuportável, sem vida íntima e possivelmente cada um vivendo suas vidas (isso estou concluindo). Optou por manter sua família com seus dois filhos.

Tenho outras histórias e uma é bem parecida, só que nessa ela optou por se separar, mas parou em analistas e médicos psiquiatras. Tudo muito igual: príncipe encantado que desencantou, uma linda família, prosperidade financeira, viagens, bens, tudo de bom e do melhor. Conversando com um amigo, ela colocou, “ela se deu bem, está rica”. Concordei com ele na parte da rica, mas se deu bem, acho que não.

Voltando à primeira mulher, ela concluiu sua carta enviada ao colunista com uma frase, “não sou feliz, mas quem é?” Tenho impressão que ambas abririam mão, seja da riqueza, seja dos garotos que a faz sentir-se amada, pelos antigos príncipes, que viraram sapos, pela vida que imaginaram viver. Não deve ser fácil dedicar décadas a um sonho e ele acabar assim.

Diálogo com o FB - XIV - Esquisito


Olá, FB. Sabe de vez em quando me encontrava com um cara.Calma, não é nada disso que você está pensando, pô! Só porque eu sou tricolor?Vou mudar a frase, de vez em quando eu me esbarrava com um cara. Eram situaçõesàs vezes inusitadas e recorrentes, como quando fui caminhar as cinco da manhã.Deve estar pensando: maluco. Foi o que uma coroa me chamou quando me viucaminhando, acho que ela está saindo para viajar com o marido, “tá maluco!caminhando essa hora! vai ser assaltado, bobão!”, mas era a única hora que eutinha pra caminhar, pois à noite eu chegava morto, e quem eu encontro? O cara.Caminhando como eu, aliás só tínhamos nós dois naquela escura “rua dacaminhada”, dando mole pra malandragem.

Ele era um cara esquisito, taciturno, mal escarado, de poucafala, que não cumprimentava as pessoas e usava, quando ia trabalhar, camisasocial, com a manga dobrada e seu indefectível sapato preto (é o que minhaequipe chama de português arcaico...). Sempre que eu o encontrava tentava mudaraquela amarrada cara, olhando para ele, cumprimentando, mas ele me ignoravasolenemente, fingindo olhar alguma coisa, pra baixo, pra cima, ou pra qualquerlugar diferente do meu olhar.

Depois eu aprendi que não precisava caminhar todo dia epassei a fazê-lo nos sábados e domingos. Quando eu ia caminhar de manhã, láestava ele em algum ponto da minha caminhada; quando eu perdia a hora, eletambém, e nos encontrávamos; se eu trocava de horário para noite, ele também,lá estávamos nos cruzando novamente. Uma vez peguei um ônibus totalmenteatípico para retornar para casa, tinha de soltar nem lugar nada a ver com meuitinerário e quem estava no ônibus e soltou no mesmo ponto que eu? Ele, claro.Tem mais, eu consegui uma lotada de táxi, que levava uns passageiros para oCentro do Rio e quem já estava sentado no banco de trás? Não respondo. Até navan, quando existia, eu o encontrava. Um dia estava no horário do almoço, noCentro do Rio e eu, “o cara que não ninguém vê”, quem aparece em plena RioBranco? O próprio.

Depois desses e outros tantos encontros, ou desencontros,passei a pensar, deve haver algum propósito nisso, porque eu encontro esse caraesquisito tantas vezes e em tantos lugares diferentes? porque ele não fala,porque está sempre com essa cara fechada e parecendo mal humorada, porque estásempre sozinho? E passei a achar graça quando o encontrava e tentava quebrar ogelo, abanando a cabeça e coisa e tal, sempre sem sucesso, quando ele desapareceu,nunca mais o encontrei, não o via mais na caminhada, na condução ou qualqueroutro lugar, acho que foi quando eu entendi o quanto eu era parecido com ele,na verdade ele era eu em todos “os defeitos” que eu via. Pois é, eu via meualter ego, olhava num espelho e não percebia, quando percebi, ele desapareceu.

Diálogo com o FB - XIII - Retorno


Pois é FB, um frio corria meu estômago, um turbilhão de recordações e sentimentos invadiam minha alma e me fazia sentir medo: “Moreira César”, um bairro abandonado da periferia. Quantas vezes eu soltei no meio da Dutra, ainda escuro, vindo de minha visita mensal, ou bimensal, à minha família, andando pela escura, reta e deserta rua. Lembrei do frio banco em que sentava enquanto aguardava o primeiro ônibus a rodar para eu retornar a um lugar que eu não sabia se era bom ou ruim para mim, tinha muito sofrimento na alma, muita amargura, mas tinha os amigos, a visão, um projeto que exigia um preço a ser pago, mas as dúvidas sempre iam e vinham, não sabia se iria para África morrer de uma doença tropical, se seria enviado para uma floresta brasileira, se ficaria numa cidade, na roça, ou se não daria para porcaria nenhuma (que foi o que aconteceu). O lugar antes ermo e deserto, agora estava... a mesma coisa:fábricas e terrenos vazios, nada mudou e me decepcionei, achava que teria evoluído, crescido, virado uma cidade, mas não e o banco que eu sentava não existia mais, foi tomado pelo mato. Quando eu vivi aqui, no início dos anos 80,era roça, uma pequena cidade do interior que seria totalmente desconhecida senão tivesse um nome peculiar, Pindamonhangaba, objeto de chacotas nos programas humorísticos da época por causa do seu nome. Desde quando meu pai foi me buscar por eu ter sido impedido de visitar minha família por Faraó, o diretor da escola, nunca mais retornei e agora estou aqui, sem saber bem porque ou pra que, mas há uma ferida que preciso fechar, há uma página que preciso virar e tenho de ter forças, vencer o medo, a apreensão e me dirigir ao antigo IBAD,nome que até hoje me dói ouvir. Porque isso me marcou tanto? O que realmente aconteceu nesse lugar? E porque eu, que me considerava forte, agora temo ao pensar em rever antigos lugares, o coreto na praça que ficava em frente ao colégio, o antigo bar que eu tomava leite com groselha, o rio Paraíba, que cortava a cidade com suas águas barrentas, a horta que eu molhava de manhã e à tarde, o galinheiro que eu roubava ovos, as pessoas... ah isso sim, o que mais me assustava, rever as pessoas. Será que seria reconhecido, será que seria bem recebido, será que o lugar continuaria o mesmo, os alunos teriam o mesmo perfil de tantos anos atrás, será, será, será? Dúvidas, apreensões, mas, como dizia a minha mãe, “cheguei até aqui, termino de chegar”.

Durante a viagem, sem pressa e parando em lugares que achava legais, a Serra das Araras, o almoço caseiro, o passeio no teleférico de Aparecida, minha mente sempre me levava para esse encontro, para esse momento, procurava disfarçar, pensar em outras coisas, curtir a viagem,pois afinal estava de férias e ali não era a minha meta, apenas passagem, não deveria ser importante, apenas um reencontro, mas a mente sempre ia pra lá,para aquele momento. Lembrava do post “Culpa” e constato que esse lugar estava comigo para onde eu fosse, comendo com ele, andando com ele, dirigindo com elee isso não era bom. A vontade de reencontrá-lo agora se tornou uma necessidade,eu precisava resolver esse assunto, entender o que ocorreu a tanto tempo evirar definitivamente essa página.

Abri a janela do carro para sentir o argelado que vinha do lado de fora, se tivesse olfato sentiria os cheiros, mas o frio já era suficiente para eu recordar de um período chuvoso que durou 40 dias ininterruptos, apodrecendo as alfaces que eu cuidava, de um local, uma cachoeira,na verdade um pequeno rio, de onde era proibido de ir, mas sempre ia com os amigos tomar banho. Era longe, a cerca de uma hora à pé, mas valia à pena, achoque qualquer coisa valia à pena, o importante era nos evadirmos. Passei por ele e a água agora não era mais tão limpa, a vegetação estava deteriorada, sobraram umas poucas e velhas árvores e quase não reconheci o lugar, na verdade nem posso afirmar que era ali, pois tudo havia mudado demais e as memórias que afloravam do profundo da minha mente não traziam informações completas para concluir, só sabia que eu ia para um rio tomar banho com os amigos prisioneiros e achava, ou queria que fosse ali.

Divaguei e me perdi. Liguei o GPS, pois não mais fazia ideia de como chegar ao meu destino, minhas memórias eram antigas,eram de eu andando de ônibus ou a pé, de carro era novidade, não tinha noção demão, contra mão ou sentido das vias, tudo novo e velho ao mesmo tempo, uma imensa confusão mental que eu tentava organizar. O aparelho me levou por um lugar novo, uma larga avenida que possivelmente seria o caminho mais rápido,mas ele desconhecia a minha alma, que não queria estar naquelas arborizadas avenidas, mas ansiava pelas coisas velhas, coisas passadas, estragadas pelo tempo, mas importantes para mim. Desisti de me achar e, perdido, segui fielmente às suas ordens e ouço me dizer “a trezentos metros dobre à sua direita”. Palpitação, falta de ar, forte ansiedade, entraria na fatídica rua,obedeci. De cara vi o antigo “Bar do Waldir”, incrível, as mesmas pedras na parede, pintadas com um verniz barato, a mesma distribuição do balcão, uma pessoa idosa atrás do mesmo, seria o Waldir? Não me atrevi a parar e perguntar,tive medo e passei direto. Sabia que poucos metros à frente encontraria com meu passado, quando um muro, feito de tijolos à mostra, construção típica da região, apareceu. Era o mesmo de tantos anos atrás, não havia sido modificado, com cerca de quatro metros, com os quadrados de tijolos cercados por uma moldura de emboço. Reconheci na hora e me vi atrás dele, catando as ervas daninhas da horta que ficava colado ao mesmo.

Dobrei a esquina ao final do muro e me deparei com a praça, a mesma citada, de tantas recordações, como a do amigo fotógrafo que usava suas possantes lentes objetivas como binóculo para espiar os transeuntes e usuários da praça, agora deteriorada pelo tempo, com gramas gastas, na verdade nem grama mais eram, era um mato, como um pasto, mal cortado por algum funcionário da prefeitura entediado. As árvores velhas pareciam que iam cair pelo peso da idade, ervas daninhas grudavam em suas folhas e galhos,piorando a situação, ressaltando ainda mais o coreto que estava bem no centro,o mesmo coreto, parecia que não recebeu uma mão de tinta nas últimas décadas, com suas pedras à mostra, tudo igual, tudo a mesma coisa, será que o tempo congelou esse lugar? Corri à vista tentando localizar onde estava. Procurei as casas, que à época estavam caindo aos pedaços, onde meu irmão morava, a vila dos casados;a casa de Faraó, que ficava do outro lado da praça; a antiga igrejinha católica, mas não conseguia identificar, pois havia uma padaria, um terreno baldio e um pequeno comércio, seriam ali?

Desisti e me voltei para a escola. Olhando de fora nada mudou, a “Casa Branca”, onde morava o antigo diretor e só, não conseguia ver mais nada, fiquei nas pontas dos pés, subi num banco próximo, mas tudo parecia estranhamente vazio. Parei em frente ao portão, ele estava fechado, olhei por cima dele e tudo estava parado, não havia uma viva alma,tudo deserto, será que era por causa do feriado em São Paulo? Tentei olhar mais ao fundo e ninguém, tudo deserto, o que teria acontecido? Confesso, fiquei sem ação, estava preparado para muita coisa, mas pro nada isso não passou pela minha cabeça. Observei um pequeno grupo moças que conversavam em frente e fiquei sabendo que o IBAD havia fechado. Fechado, acredita FB? Aquele cadeado enferrujado me privou do encontro, não haveriam mais as pessoas, não conseguiria ver meu antigo alojamento, o local da horta, o bananal, ou o local do bananal, pois não saberei mais se ele ainda existe, bem com o galinheiro.Faraó? Não o encontrei e possivelmente nunca mais o verei. Aquele cadeado trancou a minha história, o encontro com o meu passado foi cancelado, encerrado e tudo que vivi, tudo que sonhei, tudo que esperei, vai comigo pro túmulo.

Diálogo com o FB - XII - Culpa


Olá, FB. Você conhece alguma pessoa que culpa alguém ou uma situação por algum fracasso na sua vida? Eu também. Para evitar isso eu procuro ver a vida de uma maneira simples, tudo é culpa minha. Se não consegui o emprego, culpa minha, eu não me preparei, não estudei ou não estava a altura do cargo; um amigo deixou de falar comigo, culpa minha, eu não soube dar a ele a atenção que merecia ou os cuidados que ele precisava; não consegui um aumento, culpa minha, eu não soube me relacionar, não soube fazer o meu marketing pessoal necessário; a muito tempo numa fila? (adoro!), incompetência minha em não observar o que estava ocorrendo nos outros caixa e escolhi mal e assim vai, colho o que eu planto.

No princípio achava simplista, mas vendo as coisas dessa forma eu tinha ferramentas para atuar, fazer alguma coisa, o que não ocorreria se eu culpasse ou responsabilizasse alguém ou algo por isso. Quando eu sou o culpado posso pedir perdão, posso dar mais atenção, posso estudar, posso trabalhar, posso procurar melhorar, posso fazer algo, não fico na dependência, mesmo não tendo sempre sucesso. Quando eu sou o culpado por ter feito um mal negócio, ou ter feito uma escolha má, ou uma bobagem qualquer, mesmo que influenciado por outrem, ou pelo meio ambiente, ou pelas circunstância, eu encerro a história, não fico ruminando eternamente esse fracasso.

Tem pessoas que tem mágoas do meu pai até hoje e, para quem não sabe, ele faleceu a onze anos! Outros culpam alguém por um fracasso que ocorreu a décadas, isso mesmo, até hoje ruminam essa dor e sofrimento, retroalimentam um ressentimento que se eterniza e irão morrer com ele, infelizmente. Tenho muitos, muitos fracassos na minha vida e poderia fazer uma relação enorme nesse post, eu erro, eu errei e com certeza eu errarei, magoei pessoas e com certeza elas têm motivos para ter essas mágoas. Sei quem são? Não faço a mínima ideia. Assim eu aproveito esse post para pedir perdão a todos e se, eu puder redimir o que eu fiz, me falem, mas tirem do seu coração essa mágoa, que nada constrói, apenas te mata lentamente.

Dizem que quando você tem alguma coisa contra uma pessoa ela come com você, toma banho com você, dorme com você, acorda com você, te acompanha para onde você for. Quer saber se eu tenho mágoa de alguém? Deixe-me pensar... hum... acho que não, não lembrei de ninguém. Claro que sou magoado por n motivos, mas trabalho para retirar isso do meu coração, não quero ir no banheiro com ninguém.

Algum tempo depois...

Depois que eu escrevi esse post, fiquei ruminando se havia algo que me incomodava. Lembrei de algumas pessoas que não gostam de mim, principalmente do mundo corporativo, onde temos que tomar decisões, atitudes, ou falta delas que realmente machucam e eu entendo perfeitamente, mas, de um modo geral eu fiz amigos por onde passei e isso me consola um pouco. Pensei na minha profissão que eu demorei tanto a aceitar e hoje eu gosto muito; no meu casamento, que foi minha primeira opção; na minha família e meus oito irmãos, gosto de todos e sinto que todos gostam de mim, bem como meus muitos familiares e desconheço se alguém tenha algo contra mim, mas... mas... senti uma coisinha...

A muito tempo eu estudei num seminário, de onde eu fui “convidado a me retirar”. Acho que isso de alguma maneira me marcou, porque depois de tantos anos (não vou dizer quantos) ainda lembro dele, inclusive já escrevi sobre essa fase da minha vida (se tiver curiosidade procure nas minhas notas “Pindamonhangaba 1 e 2”). Também tem um outro sinal, eu sempre recusei retornar lá, apesar das muitas oportunidades, então, como tudo é culpa minha, vou tentar resolver isso. Como eu tirarei uns dias de férias, irei lá, quem sabe virar essa página ou até encontrar Faraó, feitor que “cuidou” de mim nesses anos. Depois eu conto como foi, OK? Por enquanto vamos parar por aqui.

Diálogo com o FB - XI - Rede


Bem FB, hoje estava pensando em você. Calma, não fique se achando, na verdade você apenas representou o que eu pensava, pois existem muitos outros como você: as redes sociais. Tenho um amigo que tinha uma fala, isso mesmo, apenas uma, e sempre que me via repetia, “na vida tudo passa, até a uva passa”, chato pra caramba! Mas voltemos, espero que você passe e não vou sentir saudades, não que eu seja contra, muito pelo contrário, sou usuário de algumas, me aproximei de pessoas distante, me utilizo para me comunicar e me relacionar, até para publicar meus posts, não que você seja o problema, o problema são como as pessoas te utilizam.

Infelizmente, por não saberem usar, vemos muitas vezes um reunião familiar silenciosa, ninguém conversa ou conversa pelos celulares. Aí eu pergunto, “pode isso, Arnaldo?” Pode uma mãe criar e educar seu filho no mundo virtual? Pode um namoro evoluir, virar noivado e casamento pelas redes? Pode uma casamento se manter sem conversa real, aquela que faz barulho e sai cuspe quando a pessoa fala mais alto ou mais rápido durante uma DR? Que acha de uma pessoa que está no carro com você e o tempo toda conectada, conversando, interagindo... com os outros? Como fazer compras num supermercado com uma pessoa que fica o tempo todo olhando para o celular, acha que pode dar certo? Li uma pesquisa que a segunda causa mais citadas de divórcios na Inglaterra foi você, pobre FB. Você é o culpado? Com certeza, não, culpado são as pessoas que perderam um relacionamento por não saberem usar as redes, a culpa do fim de um relacionamento é a sua falta. Não entendeu? O que acaba com um casamento, namoro ou seja já o que for são problemas no relacionamento.

Já vi amizades acabarem por sua causa, já vi brigas familiares por sua causa, já vi pessoas vestirem carapuças por indiretas que não eram para elas, mas fazer o que, redes são o terrenos das indiretas, pessoas às vezes estão apenas desabafando, descarregando suas pesadas almas, usando você como psicólogo, mas os outros acham que estão falando delas.

Para ilustrar o que estou falando deixo esse vídeo, ele demonstra a que ponto chegamos, é uma paródia, mas tem muito de verdade e também eu tenho uma coisa para dizer para os que estão se excedendo: se tiver pessoas vivas perto de você elas são mais importante que tudo, inclusive o FB, Zapzap, Linkedin, Instagram etc (são tantas que nem sei) então, você que está de cabeça baixa não está vendo sair entre os seus dedos seu casamento, o crescimento do seu filho, o problema que seu marido ou esposa estão passando, o lindo dia que está do lado de fora da sua casa, a vida. Então dê valor ao que realmente interessa, pois isso vai passar.

Diálogo com o FB - X - Cabeça


Olá, FB, tava pensando, o que é a vida, de onde viemos, para onde iremos...? Existe algum propósito em existirmos? Existe mais alguém, além de nós, nesse imenso universo? Meu corpo tem uma alma ou minha alma tem um corpo? Complexo, né? Mas eu não tenho respostas não, pode ir tirando o cavalinho da chuva. O que eu gostaria de te dizer é que muitas vezes não a compreendermos e ela se vai, escapa entre nossos dedos, não percebemos que ela está ao nosso redor, nos acompanhando para onde formos e nós simplesmente não vemos. Eu tenho a “injusta” fama de não ver ninguém quando estou caminhando e é verdade, eu não vejo nada mesmo, tudo some, mas tenho procurando mudar, olhar o que está acontecendo, levantar a cabeça, observar a vida e é isso que proponho, levantar a cabeça, desfrutar o que está fluindo de vida ao nosso redor.

Eu morro numa cidade horrorosa, mas na ida para o meu trabalho eu posso desfrutar de uma natureza que eu acho difícil achar igual. Temos montanhas, água, vento, cheiros, nem sempre agradáveis (não sinto ambos), céu, nuvens, que antigamente eu ficava procurando formas e tudo nós ignoramos solenemente. Além de, não ver nada e ninguém quando eu caminho, eu tenho outra deficiência: quando eu olho para algo eu não consigo ver mais nada além do ponto que eu foquei. Não sei se acontece com você, mas meu foco é muito restrito, só consigo enxergar um ponto de cada vez, não tenho uma boa visão periférica, fico tipo bitolado, então estou procurando desenvolver uma habilidade policial, de ver tudo ao mesmo tempo. Claro, eu não consigo, mas tento, viro a minha cabeça pra esquerda e pra direita, pra baixo e pra cima, para eu enxergar o que está acontecendo, afinal é a minha vida que está se esvaindo.

Assim, FB, desligue um pouco a mente dos problemas, eles continuarão lá, não irão embora, fique tranquilo e curta a vida, olhe o mundo, sinta a natureza, olhe ao redor, veja se o céu está azul ou nublado, deixe a chuva te molhar um pouco, olhe para as pessoas, veja se alguma precisa de ajuda, atente para seus amigos e parentes escute o que eles tem a dizer, responda, ria do que for engraçado (e das chatas também), sinta os aromas, celebre, desfrute a vida porque ela está passando.

A vida não são bens materiais, não é emprego, não é dinheiro, não é palpável, mas nós achamos que sim e damos a nossa vida por isso, já pensou nisso? que realizamos uma troca? O trabalho é fundamental, é a nossa sobrevivência, mas definitivamente não é tudo. A vida é uma folha, que seca e se vai, portanto foque no que realmente interessa, nas pessoas, nos relacionamentos e se você não for ateu, Deus. Não espere ela acabar para descobrir.

06 junho 2015

Diálogo com o FB - IX - Jornal



Olha, FB, vou te dizer uma coisa... não é mole não... hoje vou te usar de analista e desabafar, assim como muitos fazem com você: como é difícil se livrar de uma assinatura nesse país! Pra assinar é a coisa mais fácil do mundo, uma tela, digita o endereço, o cartão crédito e voilà, feito! Foi assim que eu caí, recebi um e-mail com um promoção do O Globo, R$ 6,00 no primeiro mês por uma assinatura dos finais de semana, gostei. Passei a ler os colunistas que eu tanto gosto, reportagens especiais, matérias científica e além disso eu tinha jornal velho para meu cachorro mijar e outras coisa mais, o problema era o volume, o que fazer com tanto jornal. Meu cachorro não dava conta, então passei a doar pra meu amigo na feira que vende ovos, depois passei a jogar fora mesmo, mas mesmo assim a pilha não parava de crescer e, para finalizar, os colunistas já não eram mais tão interessantes, tornaram-se repetitivos e ler um quilo de jornal no sábado e um quilo no domingo já não tinha tanta graça e decidi encerrar a minha assinatura e iniciar uma via crucis sem fim.

Primeiro conseguir o número do telefone foi um parto, que simplesmente não é divulgado em nenhum lugar, depois ser atendido. Tinha de deixar o telefone no viva voz e aguardar, coisa pouca, 40 minutos, 45 minutos e assim ia até finalmente ser atendido. Após as esperas, um ser humano me atendente. Muito educada e treinada começou o protocolo: “ boa noite senhor, em que posso ajudar, senhor? Pode confirmar os seus dados, senhor?” E tinha de informar todos os dados que ela já tinha e continuava: “o que deseja senhor? Mas porque esta insatisfeito senhor? Aconteceu algo senhor? A entrega está irregular senhor?” Para fazer a fila andar e acabar com agora a dor e sofrimento tive de fazer algo que não gosto, mentir. Disse que estava me mudando para Roraima. Para minha surpresa me perguntou para qual cidade e tive de pesquisar rapidamente a capital de Roraima que havia esquecido. Depois de um monte de perguntas mais me informou, OK, iria me encaminhar para o SAC. Não adiantou eu falar para não fazer isso, que não queria falar com eles, mas apenas cancelar minha bendita assinatura, mas não teve jeito e lá estava no tal SAC. Depois de muita lenga lenga, de ouvir muito “senhor, senhor, senhor”, de repetir que me mudei para Roraima, agora sabendo o nome da capital e sem previsão de retorno, ela e me informa que foi cancelada, ufa! Finalmente livre!

Você acreditou?
“Pegadinha do malandro!”

Cinco dias depois me ligam novamente do jornal para confirmar meu cancelamento e me oferecem uma nova assinatura mensal por R$ 1,49. Eu como bom contador miserável e mão de vaca não resisti à oferta e continuei assinante. Sei FB, você deve estar pensando, “tá maluco! Custou a conseguir e foi subornado por tão pouco? Que vai fazer, seu filho de uma égua, com esses jornais?” Eu sei, eu sei, continuei recebendo o agora uma porcaria de jornal, que não mais leio, que o cachorro nem aguenta mais cagar nem sentir o cheiro e ele continua chegando, chegando... uma praga e o disgramado do entregador não falha, faça chuva ou faça sol a droga do jornal chega, a pilha cresce e não sei de novo o que fazer com eles e só me me resta a via crucis de novo, amanhã estarei ligando novamente, agora vou para o Acre, que foi trocado por um cavalo com a Bolívia, enquanto é isso alguém quer jornal velho?

P.S.
Após alguns dias do post acima ter sido escrito...

Bem, continuando, eu segui os passos anteriores e consegui ter novamente a assinatura cancelada, foi o que a atendente me informou e relaxei, mas foi outra “pegadinha do malando!”. Dia 19 houve outro débito no meu cartão, ou seja, a bendita assinatura não foi cancelada. Não é nada que mate, foi R$ 1,99 por mais um mês de jornal, mas é frustrante falhar, e novamente. Ontem reiniciei a via crucis, para cancelar a assinatura pela quarta vez. De novo após muitos “senhor, senhor...” não, FB, não consegui cancelar, parece que o protocolo deles não tem essa opção. O que eu consegui foi transferir minha assinatura para boleto bancário. Tive de mentir novamente. Sim, eu sei, uma mentira chama outra, chama outra, num círculo vicioso sem fim. Agora moro num terreno com um monte de parentes e eu disse que passaria o boleto para meu inexistente irmão que mora comigo. Por favor, não me julgue, estou arrependido de mentir, mas o maior arrependimento foi ter cedido à tentação e ter assinado essa porcaria de jornal. Espero que a história tenha chegado ao fim, mas confesso que não estou acreditando muito. Chegando o boleto eu finalizo essa história sem fim.
Obs.: a pilha cresceu entre o inicio da postagem e situação atual e ainda tenho mais 60 dias de jornais pela frente.

Diálogo com o FB - VIII - Feira

Olá, FB, estive na feira. Como assim, “e o quico?” não posso falar sobre esse dia? Seja mais educado, viu? Bem, como tentava dizer, estive na feira. Se você não sabe eu fui criado na “rua da feira” e adivinha porque tem esse nome? Não responderei. Passei a vida toda nela e só me mudei depois de cinco anos de casado. Lá vendi limão, tentei vender minhas preás, comprei muita xepa quando era mais pobre, isso mesmo, minha mãe só me mandava eu comprar as coisas depois das duas da tarde, fiz carretos e também amigos. Tem o paneleiro, que conserta...? Isso panelas. Esse fica em frente à minha antiga casa. Tem o bananeiro, onde sempre comprava... bananas, o laranjeiro... sem comentários e tinha de comprar a laranja baiana, a que tem um umbigo na bunda. Hoje é diferente, apareço lá de tempos em tempos para comprar minhas frutas e legumes e vou na mesma barraca desde do tempo do pai do atual dono.

O ambiente dessa feira é muito interessante e até divertido, mas tem de fazer parte dele, acho que não vale muito se você for um estranho, tem de conhecer os personagens. Nessa feira tem o Martinho da Vila, isso, da feira, claro. Muito legal ele passando caracterizado, andando como tal, ouvindo os gracejos e brincadeiras dos feirantes e transeuntes e tenho a impressão que ele se acha mesmo o Martinho e segue “...bem devagar, bem devagar, bem devagar, bem devagar, devagarinho...”. Tem o vascaíno, claro, sempre de camisa do Vasco, ouvindo as repetidas piadas do “e aí vice”, “demorou a ganhar o estadual, tá um cheiro de naftalina nessa faixa”, tem o aleijado, desculpe, o senhor com deficiência que vende cuscus, e as chacotas e piadas entre os comerciantes e fregueses, isso, fregues, não cliente.

Na minha barraca são as de sempre, primeiro sou zoado por causa do meu carrinho de feira de oncinha e tenho de ouvir “só tricolor pra usar um carrinho desses”. Pois é, eu comprei esse carrinho para minha esposa, que gosta muito de oncinha, mas esqueci que seria eu quem o usaria, mas faz parte. Depois é a minha vez de reclamar do preço, chamar o feirante de ladrão, aí ele responde que tem de pagar a prestação do Toyota Hilux que ele comprou, que ele não está achando o preço caro, e a compra vai passando. Nessa barraca, como sou VIP, é selecionado os quiabinho como eu gosto, sempre pequenos e verdinhos e o chefe já separou a batata baroa que vende rápido, apesar do preço, depois aquela abóbora Sergipana, as melhores laranjas e um belo cacho de banana.

Termino e venho embora? Não. Como sou freguês antigo sou passado pra trás sempre que surge um freguês novo, que recebe toda atenção e eu vou sendo enrolado, vão passando na minha frente e fico mofando esperando a bendita conta, que não sei como chegou lá, nem quanto me cobrou pelo quilo, nem o peso do que comprei e pago, na confiança. Pra matar o tempo vou na barraca em frente e peço uma tapioca de queijo com banana, açúcar com canela e leite condensado. No verão também tomo uma água de coco ou compro um bolo “caseiro” (não tenho certeza se é a dona quem faz, mas é gostoso), ela sempre me oferece um queijo, mas confesso que acho o queijo meio sinistro e evito comprá-lo, apesar de comê-lo na tapioca.

Para o grand finale temos o último personagem. Para esse tenho de separar uns Reais, o guardador de carro. Acho que ele tem paralisia cerebral, não consegue falar e mal andar, mas está lá todos os sábados, andando meio de lado, procurando uma vaguinha para mim. Essa parte sempre me emociona, vermos que somos todos iguais, com as mesmas emoções e desejos. Ele fala eu não entendo nada, eu reclamo com ele que a vaga é ruim, que ele não merece o gorjeta, ele retruca alguma coisa e assim vamos nós em mais um dia na feira da Rua Dr. Gradim.

Diálogo com o FB - VII - Morrer

Olá, FB, estava pensado, “quando eu morrer...”, cantado em samba, planejado e trabalhado pelos faraós, desejado pelos políticos e em filmes. Todos pensam no que virá depois. O personagem de Brad Pitt, guerreiro de Tróia, desejava ser lembrado mil anos depois (acertou, três mil depois virou filme); faraó pensava na imortalidade; o sambista não queria choro nem vela, mas apenas uma fita com o nome “dela” (quem seria ela?); os políticos constroem obeliscos, leis, guerras e até suicídio para não serem apagados da memória do seu povo e assim vai, e fica uma questão, e você? E eu? O que queremos depois que o samba terminar? Seremos esquecidos?

Não quero FB, falar de religiões, acredito que existam pessoas boas e ruins em todas as crenças e religiões, em todas as opções sexuais, em todas as etnias. Tenho amigos em todos esses estratos e a conclusão que chego é que todos são serem humanos iguais a mim, com suas mazelas e qualidades. Não que eu me omita de dizer o que creio, mas procuro falar para quem está interessado em ouvir, pois hoje vejo que as pessoas são conscientes das opções que abraçam, ou não. Sim, os ateus e agnósticos também escolheram um caminho. Hoje são poucos os que são enganados ou envolvidos em tradições familiares ou sociais, quase todos têm usado seu livre arbítrio e darão conta, ou não (como diz meu filho), das suas escolhas.

Quero falar FB do plano material mesmo, de coisa rasteira e superficial, o que deixaremos quando partirmos, qual será nosso legado, o que ficará de lembranças, depois de sairmos daqui e irmos para um lugar melhor. Meu pai dizia que um homem só pode ser considerado realizado depois de criar uma família, plantar uma árvore e escrever um livro. Acho que por causa disso ele escreveu dois pequenos livros, coitado. Eu posso considerar que criei uma família, árvores já plantei e considero que escrevi um livro, mesmo que eletrônico, nesses e em outros posts (bem mais que meu pai), portanto pela métrica dele eu estaria aprovado, mas acho que o deixarei mesmo é uma lápide com meu epitáfio, “Aqui jaz um pobre miserável, desgraçado, filho de uma égua”, até ser retirado do buraco para colocarem outro em meu lugar.

Diálogo com o FB - VI - Cabelo

Olá, FB, hoje fui no barbeiro, isso mesmo, barbeiro porquê? Não, eu não vou a salão, isso é para gente chic, mas voltando, fui ao barbeiro e lá não é um dos lugares que tenha mais prazer de ir, não tanto pelo corte ou pelas pessoas, mas pela espera e paciência não é meu sobrenome. Realmente não gosto de ficar uma hora e meia, duas horas, sentado num banco de concreto frio, que deixa minha bunda dormente, num ambiante, digamos um pouco barulhento, mas faz parte, procuro ver como quando estou numa fila de um restaurante, se tem tanta gente aqui, deve ser bom.

Meu barbeiro é um barbeiro interessante, pois, além de cortar muito bem o meu cabelo (apesar da minha esposa dizer que quando retorno de lá pareço um presidiário) ele passa a impressão de não gostar muito do que faz. Na verdade eu acho que ele está cansado, por trabalhar vinte anos sem férias, entre doze a quinze horas por dia, de terça a sábado, mas ele não tem consciência disso e está sempre pensando em mudar de profissão. Agora ele está fazendo história, visando ser professor, mas já fez teologia, mas não conseguiu alçar o ministério, não quis tocar com a banda toca, se rebelou e acabou alijado e anteriormente estudou administração, para trabalhar com o pai em seu negócio, mas não concluiu.

Essa barbearia é um ambiente, na maioria das vezes, masculino, raramente temos mulheres e a conversa é conversa de homem, ficar zoando o time do outro, falando de carro, a TV fica sempre ligado no canal Combate, mas hoje estava diferente, primeiro estava especialmente cheia, com gente em pé e haviam algumas mulheres, não para cortar o cabelo acho, mas acompanhando seus companheiros ou trazendo crianças para cortarem o cabelo. É interessante vermos naquele ambiente muito barulhento as crianças vivendo seus mundinhos lúdicos, brincando com carrinhos, vendo desenho no celular, cantando a canção chata do personagem. A jovem mãe, coitada, vê seu rebento sentado naquele chão sujo, cheio de cabelo de não sabe de quem, arrastando o carrinho nesse chão a toda hora repetindo, “tira a mão do chão, tira a mão do chão, tira a mão do chão”, pedido em vão, pois ela colocava sim a mão no chão e depois no olho, na boca, no braço etc. Hoje estava tão diferente que em certo momento o Edward Mãos de Tesouras mandou trocar o canal para o Caldeirão do Huck.

Bem, depois de duas horas chegou minha vez, recebo uma mensagem do meu filho preocupado com minha demora e iniciamos nossa conversa de barbeiro, “tudo bem, como vai a família, sua filha já casou, como está o curso de história, e a igreja” e assim ia. Terminado perguntei a ele, “porque você quer mudar de profissão?” e ele me responde laconicamente, “olhe para trás”, não precisei, olhei pelo espelho mesmo.

17 maio 2015

Diálogo com o FB - V - Oportunidade

Olá, FB. Estava pensando, nós na vida temos muitas oportunidades: de estudar, de trabalhar, de evoluir, de ganhar dinheiro, de perder dinheiro, de crer, de ajudar, de se tornar uma pessoa melhor ou pior e aí vão, as oportunidades são infindáveis e de todos os gostos e tamanhos.

Gostaria de conversar sobre uma oportunidade que muitas, mas muitas vezes nós desprezamos, a oportunidade de fazer o bem, pior FB, as pessoas quando tem essa oportunidade, muitas vezes aproveitam para fazer o mau. São tão naturais, tão “do cotidiano do dia a dia” que na maioria das vezes nem percebemos que temos esse comportamento, mas observo que fazer o bem faz uma imensa diferença para as pessoas que as recebem.

Quantas vezes nós motoristas vemos um pobre coitado (às vezes um bandalheiro, tenho de ser justo), ligando uma seta, pedindo para reentrar na atmosfera (o que eu chamo da pista normal de rolamento) e aproveitamos para fechar, encostar no carro da frente para ele não conseguir reentrar? Como seria diferente se tivéssemos misericórdia do pobre diabo e deixá-lo entrar, por que não aproveitar essa oportunidade para fazer o bem? Mas não, aproveitamos para fazer o mau. Quantas vezes um filho nos vem pedir alguma coisa e aproveitamos para dar uma lição de moral ao coitado, tipo: “você tem que trabalhar, arrumar alguma coisa, pensa que dinheiro nasce em árvore, ralo muito pra ganhar o meu!?” Com seria diferente se você concedesse o pedido, dentro das suas posses, agradando seu filho? Mas não, aproveitamos para fazer o mau. No trabalho, quem é gestor e tem uma equipe, o pobre do funcionário vem pedir para sair um pouco mais cedo, por causa de um problema qualquer, vem pedir direitos legais como férias e o gestor aproveita para fazer o mau, não concedendo ou colocando dificuldades? Como ele reagiria se fosse ouvido, se recebesse uma palavra de apoio e suporte ao invés de críticas ou nãos?

O que eu estou falando FB é procurar fazer o bem, ter um comportamento de bondade, procurar oportunidades de fazer o bem, coisas bobas, como já citei e até simplórias, como deixar a pessoas sair do banco da barca (inacreditável, né? As pessoas não são capazes de deixar a pessoa sair do banco e entrar no corredor), parar para um pedestre atravessar a rua, dar um lugar para uma pessoa sentar, ajudar um deficiente (desculpe, pessoa com deficiência) nas suas dificuldade que já não são poucas e assim vai e o pagamento que você recebe é o brilho no olhar dos beneficiados, como se não acreditassem no que está ocorrendo, pois, infelizmente isso não é comum.

Eu fiquei estupefato com a atitude de uma pessoa e até hoje não acredito que isso ocorreu. Os correios lhe entregou uma encomenda que comprei na China por engano. Quando ele viu que havia recebido um produto que não era dele ele ligou para me devolver (por sorte meu celular estava no endereço). Até hoje lembro dele, pois teve a oportunidade de fazer o bem e aproveitou.

Assim FB, pense nisso, aproveite as oportunidade que a vida te dá de fazer o bem e seja, não aproveite para fazer o mau, não aproveite para dar lição de moral, colocar dificuldades, mostrar que manda e que tem o poder, que pode, que é o cara, curta o momento, quem sabe não estará ajudando a criar um mundo melhor?


P.S. Fazer o bem ou fazer o mau não tem nada a ver com ser bom ou ser mau, estamos falando de comportamento, não caráter.

09 maio 2015

Diálogo com o FB - IV - Leis

Olá, FB. Quer saber no que eu estava pensando? Essa semana eu estava pensado sobre como brasileiro gosta de leis. Não sou especialista, mas isso me parece um traço cultural, acharmos que uma lei, mas uma, irá mudar algum fato, alguma situação, alguma injustiça e qualquer mazela que vivamos.

Estava assistindo uma entrevista concedida pela mãe da nadadora brutalmente assassinada por um inconsequente motorista e ela dizia, “minha filha não vai morrer em vão, eu vou lutar pela aprovação de uma lei para ele ser punido”. Será? É por falta de lei que há a grande, a imensa violência nesse país? Mais uma lei vai alterar alguma coisa? Também assisti a nossa presidente sancionando uma lei, outra, onde agravava a pena aos feminicídios. Ser morta mulher vale mais que ser morto homem? Ter uma pena maior vai proteger alguma mulher de ser morta? É por falta de lei que as mulheres são mortas? Também estão criando ou já criaram mais uma lei também agravando a punição aos assassinos de policiais. Será que acreditam realmente nisso? Menos policiais serão mortos depois dessa lei? (idem para todas as perguntas já efetuadas). Os demais seres humanos do país valem menos que esses “beneficiários”? Agora, a chave de ouro, essa semana foi sancionada uma nova lei proibindo a discriminação de babás e profissionais de saúde quando forem a um clube ou entrarem num prédio. Ridícula, pois já existe lei contra toda e qualquer discriminação, mas demostra a que ponto chegamos.

Acho que pensamos que uma lei resolverá alguma coisa por ser um atalho, ser mais fácil, afinal educar uma criança, dar amor a elas, cuidar dos adolescentes, dar oportunidades para eles, termos escolas e famílias decentes, termos acesso à informação, zelar, cuidar etc é muito, muito mais trabalhoso e vimos nas leis a solução mágica para algo que não é fácil, afinal é difícil aceitarmos, como sociedade, que somos violentos, que nossa sociedade é violenta; que somos corruptos, como sociedade, que nossa sociedade é corrupta; que o que assistimos na TV diariamente é reflexo do que somos como sociedade.

Para mim, além de tudo que já citei, a violência e a criminalidade existem pela certeza da impunidade. Policiais são mortos por isso, mulheres são mortas por isso, pessoas são esfaqueadas na Rio Branco por isso, ou seja, não precisamos de mais leis, precisamos que as que existam, ou melhor, 10% das que existam, sejam cumpridas, que não haja assassinatos, de homens, mulheres ou policiais; que não haja roubos nem esfaqueamento de ninguém; que pessoas não sejam atropeladas, por carros em alta velocidade; que corruptos sejam punidos etc pois leis proibindo essas coisas e muitas outras existem e a muito tempo, o que precisam e serem cumpridas.

07 maio 2015

Diálogo com o FB - III - Dez segundos

Olá, FB, hoje é feriado, dia do trabalhador ou do trabalho? E estava pensando sobre uma reportagem que passou no Jornal Nacional. Nela uma jovem, que acabara de ser assaltada, se escondia atrás de uma velhinha, com medo do meliante. Ela ficava colocando a pobre velhinha entre ela e o bandido para se defender, puxando-a pra lá e pra cá, tragicômico (será cômico se não fosse trágico). A questão é, o que ela faria dez segundo depois?

Outro dia eu soltei meu outro cão. Como assim não sabe do que eu estou falando FB? Não lembra da história que um velho índio contava, numa noite fria e enluarada, aos pequenos indiozinhos, ao redor de uma fogueira, sobre os cães que existiam dentro dele? Um bom, legal, bacana, solidário, pronto a ajudar o próximo e o outro ignorante, brabo toda vida, chato, intolerante, egoísta e que viviam brigando, lutando dentro dele e um dos pequenos índios, com os olhos esbugalhados, perguntou, "e quem vai vencer a luta, ó grande pajé?" e ele respondeu, "o que eu alimentar".

Pois bem, como eu dizia, soltei o "outro cão" porque um motorista de ônibus parou em cima da faixa de pedestre em plena Rio Branco, fechando totalmente o acesso dos transeuntes, impedindo a passagem. Eu fiquei numa fila indiana para conseguir atravessar e ao passar por ele, bati palmas sarcasticamente, para qual ele fingiu não ver. A questão é, o que eu faria dez segundo depois?

Pois é FB, o que a jovem faria? Será que ainda se esconderia atrás da pobre velhinha? Será que eu bateria palmas para o pobre diabo que só Deus sabe o que ele já havia passado naquela manhã? Pense nisso, pode fazer uma grande diferença.

Diálogo com o FB - II - Niterói

Olá FB, hoje estou em Niterói. Sei, você vai dizer "mas você vai pra Niterói todo dia!", mas hoje é diferente, estou "turistando", passeando, pois tenho muito tempo, vim trazer minha esposa no medico (ela gosta muito) e vai demorar, o médico louco dela só chega atrasado e é todo enrolado, então tenho tempo.

Engraçado como nós estamos todos os dias num lugar e não vemos. Como o centro está decadente, como tem lojas fechadas, como tem prédios velhos e sujos (o único comércio pujante que vi foram de farmácias, penso que mais de 20 num raio de 6 quadras), mas tem também muitas coisas bonitas, como a prefeitura velha, tem árvores, tem praças e o melhor esse lugar tem recordações.

FB lembro quando vinha a Niterói com meu pai e ele sempre fazia duas coisas, tomava uma água gasosa, que era feita na hora com um pozinho, numa loja em frente às Barcas (nunca soube o que continha), que ele dizia que era bom pra saúde e tomava um suco de cupuaçu, confesso, nunca gostei de nenhum dos dois, mas hoje deu saudades. A água não tem mais e com dificuldades encontrei uma loja que tinha o cupuaçu e pedi um, de 400 ml. É, o troço continua a mesma coisa.

Também vi o lugar onde ficava esperando minha namorada sair do trabalho, em frente tinha uma loja de discos e ficava ouvindo os hits da época como Wando, Tete Espíndola e outros e recordando como eu era esquisito (acredite FB, eu já fui pior, sempre muito sério e calado, hoje até falo um pouco, às vezes, claro, quando ocorre uma conjunção astral), o lugar onde sentei pela primeira vez numa mesa de bar para conversar e onde entendi o sentido da discussão sobre o nada que bêbados fazem tão bem (fiquei traumatizado e nunca mais voltei, pois é duro ficar num lugar como esse sóbrio).

Seguem a foto do cupuaçu e da praça do Rink, onde vinha muito pra namorar e depois trazer os filhos. Depois continuo FB, vou lá em cima ver se minha esposa ainda está viva.

Diálogo com o FB - I - Fila

Bem, estou numa fila do mercado, enorme, e o FB me pergunta, "no que você está pensando?".
Estou pensando que a minha geração e as anteriores e a atual não souberam e não sabem formar cidadãos. 

Vejo jovens na fila de idosos, vejo uma velha reclamar que não deixaram ela entrar na frente da enorme fila, aí FB eu penso, tá reclamando de que? Você também não soube ser cidadã, não respeitou quando deveria, e pior, continua querendo se dar bem, então, aguenta! 

Hoje somos consciente que não somos o país do futuro porque nós não plantamos e colheita não é opcional, alguém disse. 

Pois é continuo na fila FB, pensando em outra coisa te falo. 


Abs,

13 abril 2012

Short Story XXXV - The End


Esse é meu último post. Eu os comecei como uma brincadeira, depois as pessoas foram gostando e fui me animando e as “pequenas histórias” foram crescendo um pouco e deu nisso (desculpe). Claro que não contei quase nada do que aconteceu na minha vida, mas já deu, né? Vamos parar por aqui, afinal, apesar de terem sido 35 posts, temos dezenas de micro histórias neles sendo contadas. Viver meio século não é pouca coisa e tem sido muito bom vive-lo, na verdade o bom não foi chegar aqui, mas sim a caminhada. Já sofri e me alegrei nesses anos e levo comigo o meu maior legado: relacionamentos, pessoas, amigos. Nesses anos eu me diverti estudando, me diverti trabalhando, me diverti andando, me diverti lendo, me diverti lendo andando (desenvolvi grande habilidade nessa área), me diverti vendo paisagens (gosto de olhar pela janela da barca, ou admirar o Aterro do Flamengo e a baia da Guanabara da Ponte ou de janelas de prédios. Também gosto de olhar o mar, a natureza com suas montanhas e águas), me diverti parando a moto na Ponte Rio Niterói para admirar uma lua que nascia, enorme (não lembro de ter visto uma tão grande e linda como aquela), espero ainda me divertir muito com meus netos (vou ser o “estraga criação”) e ainda pelo o que me resta de vida. Resolvi contar essas histórias para marcar meu meio século de vida e esse último seria um resumo desse período, uma declaração sincera do que foi viver esses poucos anos (sei que os jovens acham muito, mas acreditem, é pouco, passa muito rápido e nem percebemos eles irem). Resumiriam a vida em fases: a primeira, que foram objetos da maior parte dessas histórias, foi minha infância, eu fui feliz. Eu me diverti muito, fazendo o que gostava, tive percalços (uns “poucos”), mas sobrevivi. Meus pais me deram o que eu precisava para viver e anos tranquilos num lar em que havia paz. A adolescência foi como a de todos, com muita instabilidade e extremos, fui injusto com muitos e não tenho muito o que recordar dessa época. Passei por ela já me preparando para a idade adulta, que estava às portas e logo conheci minha esposa, que dariam muitos posts só pra falar dela, então eu resumo: com ela passei a maior parte desse meu meio século; com ela evolui e aprendi muito; sua alegria foi meu sustento em todos esses anos; tivemos bons e maus momentos; alegrias e tristezas; vaca gorda (no singular porque foi somente uma) e magras (muitas) e continuamos juntos. Tivemos nossos dois filhos que só deram alegrias. Quando crianças enchiam nossa casa de vida e vigor, adolescentes um saco e agora, indo para idade adulta, são meus amigos. Meu balanço final? A vida vale à pena ser vivida.

06 abril 2012

Short Story XXXIV - Dente


Esse assunto não poderia faltar nas nossas histórias. Hoje estamos no século XXI, nossos hábitos são muito diferentes das décadas de 50 e 60 do século passado. Nessa época a cultura era das dentaduras, banguelas e desdentados em geral, tinha até apelidos, tipo 1001, janela etc. Não era como hoje, onde o cuidado dental faz parte dos hábitos da população, onde 90% da população usam aparelhos ortodônticos (exagerei? Desculpe, 89% da população). Meus irmão mais velhos que eu têm história parecida com a minha, acho que só a mais nova escapou dessa sina. Tudo começava com o dente de leite, ou caiam sozinhos ou seriam arrancados, na marra! No meu caso eu ia amolecendo o coitado (não sei se eu ou o dente era o coitado). Quando eu percebia que estava mole o suficiente eu mesmo amarrava um barbante de pão no meu dente e ia, com o barbante pendurado fora da boca, procurar meu pai para ele puxar, que sem dó, nem piedade procedia com um forte tranco, a “extração” do mesmo. Chegava a ele com aquele barbante já babado e ele procurava puxar conversa, falando de um assunto qualquer ou uma pergunta para nos distrair e quando percebia que já  havíamos esquecido, dava o puxão. Quando dávamos sorte o dente ia no barbante, quando não (não estava mole o suficiente), nossa cara ia junto com o barbante e dente mesmo que era bom ter ido, ficava. Era uma sangueira danada! Quando um dente ficava careado então era para ser arrancado ou extraído, como se diz hoje. Não havia obturações ou tratamento de canal, apenas quase tão somente extrações, nas chamadas clinicas populares ou no ISS (atual SUS). Uma vez fui pela primeira vez na minha vida num dentista, logicamente para extrair meu primeiro dente. Minha mãe de deu o dinheiro e mandou em ir na Clinica Vila Lage, “especializada em extrações” (leia-se, a mais barata da região). Você chegava e recebia um número e ficava esperando sua vez. Os sons que viam das salas não eram alvissareiros, mas não tinha jeito mesmo, não dava para fugir, chegou minha vez e fui para a cadeira, que era regido com maestria, por uma dentista. Me sentei, esperei um pouco e recebi a anestesia. Claro que o dente não foi extraído, se não, não seria uma história, apaguei, simplesmente desmaiei. Me levaram para fora, me abanaram, me deram água para eu me recuperar e voltei pra casa como o dente estragado. O tempo passou e agora, com meu amigo Marquinhos, formos a outra clinica “especializada” (ela arrancava quantos dentes dava, pelo preço de um. Ele chegou a arrancar quatro de uma vez só!). Me animei, afinal também ia me livrar de quatro ao mesmo tempo! Era minha esperança, desmaie de novo. Descobri, na marra, que era alérgico (não sei qual é a descrição técnica correta) a anestesia com ou de adrenalina. Fiquei eu, de novo, desmaiado na cadeira enquanto procuravam me reanimar. Depois de um tempo acordei e voltei para casa, novamente com o dente do mesmo jeito.