27 janeiro 2012

Short Story XXVI - Frank


Muitos não sabem e vão descobrir agora, mas eu já fui guitarrista. Isso mesmo, o coroa aqui já foi um Keith Richards, dos Rolling Stones, e hoje vou contar a história de Frank, minha primeira e única guitarra. Ela tinha esse nome, pois era a junção de muitas partes diferente e às vezes muito, mas muito diferente, por isso o diminutivo nome de Frankenstein. Tudo começou comigo tocando violão, e tenho de abrir um parêntese para eu falar do meu pai, ele sempre apoiou os filhos em tudo que desejassem fazer, claro, sempre dentro das suas possibilidades. No caso do violão ele encontrou um irmão da igreja que tinha um usado e comprou dele parcelado. Depois veio naturalmente um desejo, como jovem que já fui, de ter uma guitarra. Para quem não sabe também disso, guitarra é igual a um violão, mesmas posições, mesmos acordes, apenas com um som e maneira diferente de tocar. Fui conversar com meu pai, que como já disse se prontificou a apoiar e ele soube de uma pessoa que tinha um bojo de guitarra. Fui parar com ele num buraco, bem na roça em busca desse bojo. Ele foi conversar com o dono, passou um tempo e ele voltou com o bojo de guitarra na mão. Estou falando bojo porque sou bonzinho, na verdade ele trazia um tronco de madeira bruta, áspera, que tinha sim, o desenho de guitarra. Fomos para casa, eu e o bojo na mão. Fiquei com aquele bojo alguns meses, pensando no que fazer com ele e fui então correr atrás e consegui com um amigo um braço de guitarra usado. O braço era tão velho que os trastes (nome dos ferrinhos que ficam no braço, OK? não estou ofendendo ninguém) eram gastos e tinha valas feitas pelas cordas que foram tocadas nele por muito e muito tempo. Estava indo bem, já tinha o bojo bruto e o braço, faltava alinda alguns componentes, como as ferragens e, logicamente, eram usadas também. (Porque acha que eu a chamava de Frank?). As ferragens estavam mal, muito mal, descascadas e com uma péssima aparência, mas consegui uma pessoa que fazia a cromagem. Levei lá e depois de uns dias voltei com as ferragens novas, lindas, o cara era bom. Estava indo muito bem, claro que já haviam ido seis meses, e agora não faltava muito para ter minha guitarra, “apenas” a parte elétrica, a montagem e o acabamento. Fui fazendo um pé de meia, esperei um pouco e comprei, agora sim, novos os captadores, botões e plugues da mesma. Só faltava a última parte, montar. Por sorte tinha uma amigo que era marceneiro e conseguir convence-lo a montá-la para mim. Ele era marceneiro de móveis e coisas de madeira em geral, não um luthier (pesquisem no Google, não vou dizer o que é) e, sob minha orientação foi montando e depois começou a dar o acabamento na madeira, agora sim área que ele dominava e muito bem. Isso demorou algumas semanas e, num belo dia, ele me chamou na casa dele, que era na favela do gato (tão pensando que tinha muitos felinos lá? Tinha mesmo, mas eram gatos de luz, era um imenso amarrado de fios pendurados, por isso o nome da favela) e me mostrou a minha Frank, linda, o cara era muito bom, ficou muito boa, funcionava e comecei a usá-la. Foram dias gloriosos, eu e minha guitarra (hehe, tô brincando, era um tocador medíocre, nunca fui grande coisa), tocando em eventos diversos. Fiquei com ela e nunca me deixou na mão, até que tive a brilhante ideia de trocar o braço, que realmente estava muito ruim. Consegui um outro braço usado e em melhores condições que o outro e eu, ao invés de levar para meu amigo, fui trocar e essa atitude está no meu panteão das grande besteiras que já cometi (pois é, eu tenho esse panteão e está sem espaço para novas). Esse novo braço velho era um pouco diferente do outro, não encaixava perfeitamente no espaço do antigo, ele era um pouco maior, e eu, ao tentar coloca-lo, forcei o bojo e Frank rachou ao meio. Foi muito triste.

19 janeiro 2012

Short Story XXV - Homenagem


Quero abrir um pequeno espaço em minhas histórias para prestar uma pequena homenagem. Em nossas vidas existem, muitas e muitas vezes, figuras que estão sempre ao nosso lado, independentemente do que sejamos ou estejamos passando. Por esse motivo elas são dignas de reconhecimento do seu valor e ignora-las seria uma grande falta de consideração, não reconhecer seu valor e companheirismo incondicional, uma afronta. Tenho um caso desses em minha vida, caso único, nunca tive igual e duvido que alguém tenha um igual. Pois é, essa história é uma homenagem à minha escova de cabelos, mas não uma escova qualquer, é “a minha escova de cabelo”. Essa escova está comigo como aquela música do Raul Seixas, “eu nasci, há dez mil anos atrás”, exagerando um pouco, ela está comigo quase esse tempo (hehe). Ela esteve quando eu penteava meu cabelo para o lado e depois penteava para trás, e depois para o lado, e depois para trás (qualé, pô! Não dá pra variar muito um cabelo masculino. Se eu tivesse saído do armário...! hehe). Pois é, a minha companheira esteve comigo quando eu era vigilante (Story XXII), quando eu tive minha primeira namorada, quando fui para Pindamonhangaba (Story XIV), quando fui na ilha (Story XII), depois quando voltei de Pinda e quando casei (observe o detalhe do meu cabelo cruzado na nuca nas minhas fotos de casamento, foi ela), esteve comigo em toda a minha vida profissional que se iniciou em 1985 (já estão fazendo contas, né?), viu ao meu lado, o meu Fluminense ser campeão brasileiro de 1984 e de novo em 2010 (um dos poucos seres vivos que puderam testemunhar esse fato), depois tive filhos e ela foi muito usada por eles, depois eles se tornaram adolescentes e agora ambos estão na faculdade, e ela comigo, uma heroína. Ela viu comigo as vitórias do Airton Senna, viu o surgimento e fim do grande piloto Michael Schumacher, viu o Brasil perder com a seleção dos sonhos em 82, depois ser Tetra e depois Penta Campeão mundial. Só para os mais jovens entenderem o que eu quero dizer, ela é de antes do Chaves! Isso mesmo! E ressalto um fato relevante: nunca a traí ou tive outra escova, sempre a mesma (coitada!). Minha escova é um bem imaterial, tem um valor sentimental que as poucas cerdas restantes dela não têm como entender. Ela foi a única que aceitou meu rebelde cabelo, que meu barbeiro tanto “gosta”. Ele diz que ele corta cabelos de vários clientes e tem uns clientes que têm um redemoinho aqui e outro redemoinho ou acolá, mas meu cabelo não, “é um redemoinho só”.  Mas ela não desiste, está sempre junto, ajudando a dar aquela caprichada que todos sabem como é (não sabiam o segredo, né? agora já sabem, minha escova!). A coitada está tão caquética e há uns anos proibi que minha família a usem-na, se não iria acabar muito mais rápido, afinal, cada vez que minha filha a usava, com seus longos cabelos, ela ficava mais careca. Graça a essa decisão ela está durando um pouco mais, mas penso que o final se aproxima, pois como disse restam poucas cerdas e terei de aposenta-la (acho que de 2020 ela não passa). Aí me vem uma grande questão, o que fazer com seus restos mortais ou cerdais? Não sei o que fazer e estou muito dividido. Num determinado momento meu lado negro me diz para eu jogar para cachorros pegaram ou para os ratos da minha filha roerem, num outro momento penso em por num quadro na parede ou numa caixa de vidro lacrada e por em exposição na sala (minha esposa iria adorar); à vezes penso em dar um final digno de uma grande companheira: ser cremada (quem sabe usar seu fogo para assar umas carninhas, hehe). Brincadeira, não sei o que fazer com o que resta dela, aceito sugestões. Estão curiosos, querem saber quantos anos ela tem? Aí é como a marca da besta, tem de fazer contas, eu a tenho desde 1981, estamos em 2012... (foto original da coitada).

13 janeiro 2012

Short Story XXIV - Formatura


Hoje as crianças se “formam” quando terminam a alfabetização e até para a conclusão do jardim se faz uma linda formatura. Há uns dias estava vendo no FB a “beca” da filha da minha sobrinha. Uma coisinha linda, uma bequinha vermelha, pequerrucha, muito legal! No meu tempo não tínhamos toda essa pompa e circunstância de hoje, mas também tínhamos a nossa e chamava-se “festa do livro”. Era uma festa na escola, onde os alunos recebiam um livro para celebrar a alfabetização. Minha mãe tinha por hábito nos colocar numa escola particular para sermos alfabetizados, depois não, era escola pública mesmo, mas ela tinha esse carinho até a minha vez, o 6º filho. Depois de mim passaram a sempre estudar em escola particular, isso porque a situação melhorou um pouco, visto que pelo menos quatro já tinham ido embora de casa pois casaram. A escolinha que ela me colocou era na nossa rua mesmo e era na verdade duas salas comerciais que funcionavam como escola, a turma A e a turma B. O colégio se chamava Externato Olivier o “entra burro e sai mulher”. Pois é, eram outros tempos, o bullying já começava na alfabetização. Eu fui um aluno exemplar (hehe) e consegui me formar depois de muita ajuda da minha mãe para eu conseguir aprender a ler as primeiras letras e escrever as primeiras palavras e ia me “formar”. Hoje, tempo das impressoras laser e jato de tinta, xerox etc talvez nem saibam, mas as cópias antigamente eram tiradas num equipamento chamado mimeógrafo. Já ouviram falar dele? Pois é, era um rolo, tipo rolo compressor mesmo, que era preso um papel marcado por carbono, e depois recebia uma folha de papel umedecida em álcool que era prensado nesse rolo e copiava o que se desejava. Para a formatura a diretora da escola me deu uma folha mimeografada, como se dizia, com o modelo da beca, que era apenas a parte de cima, pegando apenas nos ombros e o chapéu (não sei como chama aquele chapéu com um corda pendura) e levei para minha mãe. Eu, coitado, um molequinho, sem noção nenhuma continuei estudando, quando chegou o grande dia, o dia da minha formatura. Me arrumei, me preparei para esse grande dia e minha mãe foi colocar a minha beca para a minha apresentação, prendeu o desenho do mimeógrafo no meu bolsinho, que ela havia cuidadosamente recortado com uma tesoura. Não entendi bem e fui todo serelepe para a escola com a “beca” fixada com um alfinete no meu bolso. Quando cheguei lá tive uma grande surpresa, todos os meus coleguinha estavam vestidos com a beca e não com ela recortada e presa no bolso! A diretora quando viu a situação cuidadosamente foi me levando para o fundo da classe de forma que ninguém me visse. Todas as crianças foram sendo chamadas e recebendo seu livro com uma grande salva de palmas, eu, discretamente recebi o meu, sem palmas ou apresentação. Até hoje tenho dúvida se minha mãe fez aquilo porque achou que era assim mesmo ou esqueceu de mim. Não sei se foi por esse motivo, mas nunca tive uma formatura na minha vida, nem quando conclui a faculdade.

06 janeiro 2012

Short Story XXIII - Picolé

Algumas historias escrevo a pedido, essa é uma delas. Sempre gostei de trabalhar e ter meu dinheiro, até porque era esse ou nada, assim sempre dava um jeito de ganhar algum. Algumas das minhas histórias citam isso e o que gerava mais receita era vender picolé. Hoje quase não vemos mais os vendedores de picolés nas ruas, vemos é esse iogurte de R$ 0,50, que até gosto de comprar, mas picolé mesmo, não. Havia uma fábrica de picolés perto de minha casa, que fazia grande sucesso e comprávamos lá para vender. Nós tínhamos de ter uma caixa de isopor para começar a vender e isso era a grande dificuldade, ou seja, precisávamos de dinheiro para conseguir ganhar dinheiro. Normalmente nós vendíamos ferro velho (lata, cobre, metais, vidros, papelão etc) que catávamos e assim comprávamos uma caixa pequena, que não dava uma boa renda, mas era um começo e depois íamos trocando e comprando uma caixa maior, que dava para uns 40 ou 50 picolés. Num dia de verão saí vendendo meus picolés, ia pelas ruas gritando, “olha o picolé! Picolé!” e muitas vezes vendíamos numa praia, que ficava ao fundo da Baia da Guanabara, chamada Praia da Magata. Devem estar se perguntado porque “se chamava”, não? É que ela não existe mais, passou uma rodovia por cima e depois construíram um estaleiro no que restou dela, coitada. Mas, nessa época, era uma praia famosa e os pobres gostavam de ir lá, como os piscinões de hoje. Como minha mãe me via nessa luta de andar de sol a sol, cabe ressaltar descalço, comprou para mim um chapéu de palha enorme, como os sombreiros mexicanos (como o da foto), e lá eu saía com meu chapelão, minha caixa de isopor e meus picolés para vender, gritando. Um dia tive uma venda muito especial, fiz quatro viagens e consegui vender uns 200 picolés e estava feliz da vida com minha féria. Como o dia estava terminando e o sol se pondo, achei que, como filho de Deus, merecia um mergulhinho na praia da Magata. Assim cuidadosamente escondi o fruto do meu duro dia de trabalho dentro da minha caixa de isopor e fui me refrescar um pouco e depois ir para casa. Entrei nas águas mornas e aproveitei, fiquei uns minutos, nadando e mergulhando, aproveitando o fim de tarde tão gostoso e voltei para pegar minha caixa de isopor, que me esperava. Eu me vesti e ansiosamente peguei minha caixa para i embora e, para minha surpresa, o dinheiro havia sumido. Fui roubado.

01 janeiro 2012

Short Story XXII - Vigilante


Falar do meu primeiro emprego é complicado, pois trabalho desde que me entendo por gente, seja catando ferro velho, seja vendendo limão na feira, seja trabalhando com meu pai em obras, seja trabalhando com meus irmãos mais velhos como ajudante de mecânico, ajudante de pedreiro, ajudante na gráfica, colaborando na impressão de boletins, ajudante de eletricista, faxineiro de igreja etc então vamos chamar de primeiro emprego com carteira assinada. Perturbava meu pai pedindo para ele me ajudar e ele então me levou a uma floricultura para ser entregador de flores. Usaria um jaleco azul e um triciclo para ir e vir com as muitas flores e entregando-as aos clientes: me recusei (sempre fui metido e magro, tinha 59 quilos e 1,80 m. Até o exército me recusou por falta de peso). Como não aceitei esse, nem o de vendedor de pão na rua, ele então falou para eu esperar fazer dezoito anos que ele teria outra coisa “boa” para eu fazer. Assim, no mesmo dia que fiz meus dezoitão dei entrada na minha carteira de identidade (no passado só com dezoito era possível), recebi um protocolo e voltei ao meu pai que então me levou à empresa, uma empresa de vigilância. Fui apresentado ao amigo de meu pai, entreguei o protocolo da identidade e outros documentos e já fiquei para trabalhar. Os caras me deram um uniforme marrom e bege, um quepe, uma cartucheira, presa a um cinto largo e um trinta e oito ou treizoitão. Nunca tinha visto uma arma na minha vida e minha mão cedeu quando a recebeu, entranhando o peso. Olhei para a bichona e achei meio esquisita, visto estar um pouco enferrujada e velha, mas nunca tinha visto uma, então nada falei e me calei. À noite me levaram para uma casa velha em Icaraí para eu vigiar. Era uma casa antiga e abandonada, ainda com os móveis e um automóvel rabo de peixe em cima de tripés na garagem, pois havia uma briga entre os herdeiros. Peguei o treizoitão e fui para uma velha cadeira que ficava na varanda em frente da casa esperar o dia amanhecer. Demorou para isso acontecer...! e pudesse ir embora para casa...!, mas finalmente amanheceu e fui rendido pelo novo vigilante que me perguntou pela noite, se foi tranquila ou teve alguma ocorrência e aí então fui saber por que aquela arma era meio esquisita e velha. Era comum a bandidagem pular o muro da casa, dar um sacode no vigilante (eu) e levar a arma dele, então davam a pior que tinha para o coitado (eu de novo) e assim minimizar o prejuízo da empresa. Fiquei uns dias vigiando essa casa e fui transferido para outro posto, agora na subestação de energia da Ampla no Alcântara. Lá era legal, eu tinha de abrir e fechar o portão para os caminhões e carros que entravam e saíam, conferir identificações e revistar bolsas e sacolas dos pobres (faxineiros e operários, os chefes saiam direto nos seus carros) e assim ia meu dia. Um dia era feriado e o movimento era muito pequeno e estava meio entediado, então comecei a brincar com minha arma, levantando e abaixando o cão da arma suavemente, quando houve uma grande explosão, caí para trás da cadeira com arma ainda fumegando na mão e desesperado, pois tinha dado o primeiro e até hoje único tiro da minha vida. Procurei um buraco em mim, mas vi que ela tinha passado a centímetros do meu joelho e encravado na parede em frente. Fui expulso da corporação (não sei por quê. Ô vida injusta, sô!). Brincadeirinha. Graças ao amigo do meu pai fui poupado e ainda vigiei (e dormi) muitos outros lugares, um deles foi a antiga sede da Ampla, em frente às Barcas. Nesse posto era eu mais outro vigilante veterano e passávamos a noite dormindo, digo, vigiando, na verdade era um rodízio, enquanto um dormia atrás do balcão o outro ficava “alerta”. Uma noite era minha vez de ficar acordado e ouvi um barulho que parecia vir do andar de cima e era como se alguém estivesse virando uns móveis, tipo, “vrum, vrum, vrum”. Dava um tempo e recomeçava, “vrum, vrum, vrum”. Acordei meu companheiro que ficou também ouvindo e decidimos subir para ver o que era. Íamos como nos filmes, se arrastando lentamente pelo cantinho da parede da escada, arma em punho, ouvindo o barulho e indo ao encontro dele. Chegamos no andar de cima, ele olhou para um lado e para o outro do corredor e nada, então fez sinal para eu segui-lo. Não era ali e decidimos subir mais um andar, pois agora parecia vir de lá o som. Novamente pelo cantinho da parede da escada lentamente, arma em punho e subindo.  De novo, ele olhou para um lado e para o outro, não vendo nada me fez sinal para eu subir. Continuamos atendo ao som e percebemos que ele vinha de uma sala em frente, ao final do longo corredor à esquerda. Fomos lentamente ao encontro dela, ele na frente, eu sempre atrás (hehe) e chegamos a porta. Ficamos um tempo ouvimos ouvindo o som, “vrum, vrum, vrum” e ele decidiu entrar, mas a porta estava trancada, então ele recuou um pouco e deu com o pé na porta, arrombando-a. Quando a porta abriu, devido ao excesso de força, ela bateu na parede atrás da gente, ele se assustou e se virou rapidamente, pensando ser um contra ataque e colocou uma enorme arma na minha cara e eu, “calma, calma! Foi a porta, não atire” (nada fácil lidar com profissionais treinados...!). Continuamos nossa ronda e nada de acharmos a origem do som, quando nos demos conta que o ele vinha da padaria ao lado, era a máquina de pão virando a massa para o padeiro fazer pão.

17 dezembro 2011

Short Story XXI - Sanguessugas


Devem estar pensando que sanguessugas são pessoas que gostam de aproveitar e abusar das pessoas boas, né? Mas não, erraram. Estou falando dos bichinhos gosmentos e pretos que grudam na pele quando damos o mole de tomarmos banho onde eles estão e, conforme ela vai sugando nosso sangue, vai crescendo, crescendo, crescendo, como se fosse uma bexiga de ar, mas com sangue. Quando moleques nós criávamos muitos bichos, o que pintasse estávamos criando, até pintos (hehe). Meu pai adorava papagaios e micos e sempre tínhamos um deles ou ambos em casa. Micos são terríveis, tem uns dentes que parecem navalhas e era só dar mole e lá ia um pedaço do dedo; papagaio era diferente, esmagava o dedo. O bico de um papagaio e capaz de quebrar pedra e quando ele pegava nosso dedo...! Só a graça! Não soltava de jeito nenhum, apertava até furar e sair sangue. Um dos meus irmãos tinha uma grande criação de ratos, isso mesmo, ratos, dos brancos. Aquilo multiplicava igual a ratos (rs) e nem sei o que ele fazia com aquele monte de ratos. Tinha outro que adorava cachorros, que ele mandava lamber suas perebas das pernas (tínhamos muitas perebas). Imagine, né? E se pegasse raiva? Tô falando do cachorro, coitado! (rs). Lembro uma cadela gordinha que ele usava para esses fins, chamava-se bolinha, mas ele tinha muitos outros. Uma vez, outro irmão, (estou falando de um terceiro diferente, tá? Tenha oito!) trouxe de SP um dobermann. Era preto e eu que cuidava dele quando ele não estava. Eu levava feijão com leite, misturados. Nunca entendi porque aquele animal comia aquilo e também levava angu ou canjiquinha. Nessa época não se falava em ração, cachorro comia nossa comida mesmo. Esse cachorro mordeu um monte de amigos meus e  também minha irmã, sempre na altura do pescoço, o bicho era predador, queria a jugular. Nesse mundo animal tinha pena da minha mãe, coitada, mas ela também tinha seus bichos, eram os patos e as galinhas do vizinho. Nossa casa não tinha quintal e ela tirava uma casquinha dos animais do vizinho. Ela adorava aqueles animais e sempre cuidava deles, dando comida e acompanhando seu dia a dia, seus filhotes quando nasciam etc; até minha filha deu comida para esses patos, chegava e papai já lhe dava um grande pão molhado para ela dar para eles. Eu criava preás. Preá é como um rato grande e também se multiplicava como ele. Comecei com um casal e em pouco tempo tinha vinte e cheguei a ter mais de sessenta. Elas tinham de comer e para isso eu tinha de colher capim nos terrenos baldios da minha vizinhança. Era muito chato fazer isso, mas quem mandou ter preás, né? Quando eles começavam a gritar, minha mãe dizia: “tem de ir pegar capim para os bichos!” e lá ia eu. O capim que elas gostavam era um que cresciam em lugares pantanosos e haviam muitos onde hoje é o marimbondo, um “lindo” bairro da minha cidade (onde eu moro). Esses terrenos pantanosos eram interessantes, pois criavam uma camada, como se fosse um tapete, em cima da água, e nós andávamos nesse capim tapete, que era mole e se mexia quando passeávamos nele. Um dia fui colher meu capim e estava num desses lugares moles, quando minha perna afundou na agua. A principio não me incomodei e continuei cortando meu capim e, quando concluí minha colheita, saí do terreno e fui amarrar meu fardo de capim para levar para minha preás, quando tive a surpresa: preso em minhas pernas haviam umas vinte sanguessugas grudadas e chupando meu sangue. Já tiraram sanguessuga da pele? Pois é, não puxar se não ela pode arrebentar. Você tem de tira-las cuidadosamente, passando uma folha entre a pele e ela até soltar o ferrão. Fiquei mais de uma hora tirando sanguessuga das minhas pernas. Devem ter sugado um litro do meu sangue.

06 dezembro 2011

Short Story XX - Capitão

Bem, falar da minha mãe é fácil e esse post irá recordar uma das suas interessantes facetas. Minha mãe era especial e esse “especial” era o que ela era, não apenas o que representava. Sei que todas as mães são especiais, nem tenho a pretensão de compara-la, mas essa era diferente, sempre tinha uma palavra ou um conselho com profunda simplicidade (ou simplicidade profunda), que clareava uma situação que se vivia e ajudava a vencer momentos difíceis. Tinha suas frases ou provérbios, como: “o coração é meu, pode sofrer; o rosto é do próximo, tem de sorrir”, “cheguei até aqui, termino de chegar”, “não tem tu, vai tu mesmo”, “buscai ao Senhor enquanto se pode achar”, “ruim com ele, pior sem ele” e assim ia, eram muitas e muitas, mas hoje não vamos falar disso e sim sobre “arte culinária”, quero dizer, uma refeição (se é que posso chamar desse nome) que ela fazia para nós crianças e era o manjar dos deuses, uma grande festa. Eu achava muito, muito bom e adorava quando ela preparava para nós, mas hoje eu entendo que era gostoso porque ela estava com a gente, fazendo e nos dando para comer ou na mão ou diretamente na boca e não uma comida elaborada. O nome dessa iguaria? Capitão. Para os que não tiveram a oportunidade de viver essa época ou saboreá-lo, vou tentar explicar. Primeiramente não sei a origem desse nome, até hoje não entendo porque se chamava assim, e acho que era preparado com as sobras de comidas que havia na cozinha na hora. Misturava-se o que havia tipo, arroz, feijão, carne, farinha (realmente não faço ideia do que havia nesse prato, lembro do sabor e do momento) e era uma delícia. Era preparado e oferecido por ela, como já disse, na mão (tipo os indianos), não havia talheres, fazíamos uma rodinha e ela ia preparando os bolinhos e oferecendo para gente. Diria que era o formato do sushi da culinária japonesa, mas sem a cobertura de peixe ou algas, só o bolinho. Era uma festa, aquela turma toda saboreando aquele alimento que só ela sabia fazer. Tenho certeza de que quem teve a oportunidade de comer adorava (não sei se algum neto provou). Hoje nosso mundo evoluiu e é tudo muito asséptico, limpo, lavado, quando criança, não. Acho que por isso ninguém ficava doente à toa, tínhamos muitos anticorpos.

02 dezembro 2011

Short Story XIX - Parati

O Cachadaço (piscina natural), em Trindade, Parati. 
A família da minha esposa tem uma ligação forte com o sul do Estado do Rio: Ilha Grande, Angra, Parati e Ubatuba, SP, pois são originários dessas bandas e, de vez em quando, vamos visita-los e ver como estão indo. Até aí tudo bem, gosto do lugar e mais ainda das pessoas que vamos ver, o problema é a viagem. Não há uma vez que façamos essa viagem que não ocorra um problema e sério. Uma vez nós enguiçamos, de madrugada, em plena Rio Santos (quem conhece pode imaginar). Foi terrível! Estava com minha sogra e crianças pequenas e ficamos com um carro novo, enguiçado, nas trevas da rodovia. Com muita dificuldade conseguimos chegar a uma localidade e fomos procurar um lugar para pernoitar e nada! Tudo cheio e a família teve de passar a noite de favor na varanda de uma pousada, esperando o dia amanhecer e eu na porta duma oficina para tentar consertar o carro. Claro que se o mecânico conseguisse conserta-lo não seria uma boa história, o mecânico da região simplesmente não conseguiu encontrar o defeito e precisei reboca-lo para casa e a família voltou de ônibus. Numa outra vez íamos tranquilos, estava estranhando, quando, do nada, simplesmente a roda dum ônibus, que vinha em nossa direção se soltou. Conseguem imaginar? Era a roda traseira, aquela que tem dois pneus conjugados, passando a centímetros do nosso carro. Foi terrível 2! Tem mais, numa outra viagem foi um motociclista, coitado, que não tinha nada a ver com minha sina, mas que vinha em sentido contrário ao nosso. Eu “tentava” ultrapassar um caminhão nas estreitas e cheias de curvas, ♪ Estrada de Santos  (Roberto Carlos), mas o motor não tinha potência pra concluir a ultrapassagem e eu via vir a moto em minha direção. O que pude fazer foi piscar o farol para ele, tentando mostrar que eu não tinha como sair da onde eu estava, e assim ele desviar de mim. O coitado não entendeu, ou vinha muito rápido, e só pode afastar um pouco para a esquerda e passar a centímetros do meu carro. Foi horrível 3! Passei o resto da viagem imaginando se eu tivesse colidido com o mesmo, seria morte dos dois ocupantes e mais estragos em quem estava comigo. E assim vai, sempre acontece algo, tem a vez que um pneu dianteiro estourou a 100 km/h (primeira e única vez que isso ocorreu comigo), ou a vez que o carro se recusou a subir uma ladeira, obrigando à bisavó da minha esposa soltar e subir o morro à pé, tem a vez que eu “decolei” da pista, voando e quicando no canteiro central, quebrando minhas quatro rodas de liga (agradeço sempre a Deus por mais esse livramento), tem a vez que minha esposa perdeu R$ 1.500 nos radares, tem a vez que o carro não queria subir o “Deus me livre!”(“pequena ladeira” da localidade), tenho até medo quando penso que vou para lá, pois sempre acontece alguma coisa nada boa. A última foi com a minha filha. Foi só sair de lá para virmos embora e ela começou a passar mal, mas não foi uma indisposiçãozinha, realmente ela passou muito, muito mal. Acho que paramos umas 14 vezes até conseguir chegar, numa viagem que demorou muitas mais horas além da prevista. Ela veio mal de Parati até o Rio, quase vomitou as estranhas, viu a morte, muito difícil. Foi terrível 4! Passarei esse natal lá, depois conto essa outra história.

30 novembro 2011

Short Story XVIII - Trem


Perto de minha casa havia uma linha de trem. Hoje foi tudo destruído e algumas partes ocupadas por barracos, virando uma comprida favela em forma de charuto. Dizem que vão construir um metrô nesse espaço, mas acho que vou morrer sem ver, quem sabe meus netos. Mas quando criança nós usávamos esse trem para nos locomover de verdade. Eram trens como os dos filmes do velho oeste, revestidos de madeira, bancos que virava o encosto e com aquela varandinha entre os vagões, onde, nos filmes, os bandidos subiam, vindo dos cavalos a galope. Uma vez nós fomos a uma localidade e eu e a molecada vínhamos pendurados nas escadas dessa citada sacada, aproveitando a vista e o ar fresco. Eu passava o pé na vegetação que passava rente ao trem, era divertido. Estava eu nessa brincadeira quando alguém me chamou e eu me virei para atender, quando vi passar colado ao trem uma mureta de concreto duma ponte enorme. Se eu não tivesse sido chamada teria “chutado” aquele concreto, ocultado pelo mato e talvez até caído do trem. Depois do susto parei com a brincadeira e pouco tempo depois veio uma pessoa carregada do vagão que estava atrás do meu e perguntei: “que houve?” E ele respondeu, “chutei a mureta duma ponte”. Coitado, quebrou o pé (como diz o ditado, “antes ele do que eu” hehe). Mas a história de hoje é sobre as caronas que pegávamos nesse velho trem. Como já contei, meu pai era pastor e sempre estávamos na igreja, fazendo bagunça, claro, e esse trem passava em frente da onde ficávamos e onde havia uma estação. Havia um horário à noite, por volta das 20 horas, e sempre íamos pegar uma carona nele. Na verdade nem era carona, o que fazíamos era ficar agarrados nos estribos, pendurados e quando a velocidade ia aumentando nós soltávamos. Coisa boba de crianças, que adorávamos fazer. Um dia fui eu estava na minha carona, mas outros moleques estavam agarrados com eu não me deram condições de soltar a tempo e o trem foi aumentando a velocidade, ficando então impossível pular, quando fui agarrado pelos colarinhos e puxado para dentro do trem: era o fiscal. Fiscal era como um cobrador. Tinha um alicate na mão e ia furando as passagens dos pagantes e ele falou: “passagem”. Que passagem? Não tinha passagem nenhuma, então ele disse, “então vamos para a estação terminal e vai ser levado para o Juizado de Menores”. Juizado de Menores era o nosso terror. Nossa mãe dizia que eles arrancavam as unhas das crianças com alicates, batiam, sufocavam e torturavam. Tinha pavor de passar em frente a um e lá estava eu sendo levado pro "inferno", pensei eu. O homem rude não me largava, sentamos e ele continuava me segurando firmemente, até que o trem parou na próxima estação. Quando o trem começou a se mover eu falei para ele: “posso ir ao banheiro fazer xixi?” e ele respondeu, “certo, mas vou com você” e veio me seguindo e ficou me olhando pela porta aberta. Os banheiros de trem dessa época eram interessantes, na verdade era um vaso sanitário com um buraco embaixo e os números 1 e 2 caiam direto na linha férrea (estranho, não? Ainda bem que o mundo evoluiu). Mas voltando, o trem se movia e vi a janela do banheiro aberta, não pensei duas vezes, me joguei pela janela, saltando do trem em movimento e já caí com as pernas correndo (igual a dos personagens dos desenhos animado). Quando bati no chão já saí correndo como um desesperado e me afastando rapidamente do trem (o que o medo não faz, me joguei de uns 3 metros de altura e caí em pé e já correndo!). Já longe olhei para o trem e vi o cobrador fazendo sinais “educados” para mim e me “elogiando” com lindas imprecações. Nunca mais peguei carona. Voltei à pé e fui recebido como “amor e carinho” pela molecada. Naquela época não tinha esse negócio de bullying, respeito, e mundo politicamente correto: o pau cantava mesmo. A molecada me descascou, sofri.

24 novembro 2011

Short Story XVII - Coleções


Bem, nessas histórias comemorativas do meu meio século de vida, não poderia deixar de contar uma faceta dos meus tempos de infância: coleções. Quando moleque eu tinha coleção de tudo, hoje quase não vemos mais esse hábito junto às crianças, comum na era sem TV, sem Games, sem Internet, sem Facebook, sem MSN etc. Começarei pela mais nobre das minhas coleções: Selos. Ainda tenho uma grande coleção de selos e daqui a uns 200 anos vão valer uma grana (meus tataranetos quem dirão). Era dura a minha vida de colecionador de selos, porque muitos deles precisavam ser comprados. Para quem não é do ramo vou explicar. Existem dois tipos de selos, os comemorativos e os ordinários. Os ordinários são aqueles apenas com um valor impresso e servem mesmo para enviar cartas, de pouco valor para se colecionar, e os comemorativos, como diz o nome, era para comemorar ou lembrar alguém ou um fato histórico e esses podem valer mais, se for raro. Tenho coleções completas de selos de vários anos, sempre uma unidade de cada, que eu comprava na agência filatélica dos correios em Niterói. O correto é colecionar o que é chamado quadra, ou quatro selos agrupados, mas eu só podia comprar um e olhe lá (tinha uns que eram muito, muito caros para mim). Eu também tinha coleção de tampas metálicas de garrafa de refrigerante (hoje quase não tem tampa assim). Eram tampas de metal com figuras estampadas na parte de dentro e que iam para um álbum até ser completado. Também colecionava figurinhas de chicletes, que também tinha um álbum com muitas páginas, muito legal, e tinha as coleções que só eu tinha, como a de lápis, isso mesmo, lápis. Cheguei a ter mais de 200 tipos diferentes de lápis. Colecionava borrachas escolares, essas eram mais raras, coleção de perfumes, na verdade vidros vazios de perfumes, coleção de cartões postais (tinha uma pilha enorme), coleção de moedas antigas (no passado a série de moedas duravam uns três anos, assim era fácil ter moedas do Brasil “antigas”: Réis, Cruzeiro, Cruzeiro Novo, etc), coleção de papéis de carta, coleção de bolas de gude (as coloridas chamávamos de “corinho”, seriam hoje os olhos de gatos), fichas de ônibus (as passagens tinham diversos valores, de acordo com o percurso, e eram dadas como recibo fichas de plástico coloridas que nós desviávamos dos ônibus), gibis (como eu gostava! Comprava usado na feira, pois eram mais baratos), chaveiros, palitos de picolés (catávamos na rua e fazíamos esculturas com eles), caixinhas de fósforos e por fim meus “preciosos”, os mais queridos, meus álbuns de figurinhas. Completeis alguns, entre eles dois especiais, Ciências, que era um álbum cultural, com as grandes descobertas da ciência da época (eu o tenho até hoje, um pouco carcomidos por cupins). Era um álbum educativo, com fotos ou desenhos e a descrição de cada uma (muito legal) e por fim o meu álbum de figurinhas da Disney. Esse eu sempre cuidei com um carinho todo especial, afinal quando os completei ainda estudava no Tarcísio Bueno! O álbum da Disney, como todos, tinha um mercado paralelo de venda e troca de figurinha e tinha a mais difícil de todas: a Baleia, do filme Pinóquio. Um dia comprei um saquinho (não podia comprar muitos, ok?) e quando abri veio três figurinhas repetidas, uma saco, certo? Não, eram três baleias num saquinho só! Fiquei rico revendendo-as. O tempo passou e a minha cunhada pediu emprestado meu álbum da Disney e meu coração desmoronou. O tempo foi passando, passando e nada dela devolver e por fim desisti, afinal já haviam se passado 10 anos! Um dia eu fui à casa do meu sogro e para minha surpresa ela devolveu meu querido álbum e intacto! Foi o melhor dia da minha vida de colecionador. Hoje não empresto mais, não adianta pedir, no máximo olhar, e na minha mão (hehe).

21 novembro 2011

Short Story XVI - Pedrinhas


Quando moleque vivíamos na casa dos amigos, éramos aquelas crianças chatas, inconvenientes, que todos evitam e falam mal, davam um dedinho e a gente pegava o braço todo, mas fazer o que? Nossa casa não tinha nada! (Éramos 8 + os pais + as avós, numa casa de dois quartos. Depois ela cresceu, mas quando moleques era dessa forma). Assim só restava a rua e casa dos outros, éramos chamados televizinhos (imagine porque, né? Isso mesmo, não tínhamos TV, nunca tivemos. Minha primeira TV foi quando eu me casei). Alguns vizinhos eram legais e deixavam a gente assistir um pouquinho de TV, abrindo até a janela, e nós ficávamos pendurados nela ou em cima dos muros. Outros fechavam portas e janelas na nossa cara, ou escondiam que tinham TV (eu até entendo, ninguém merecia “aquilo”). Um dia estava na casa de um desses coitados e fui convidado a fazer uma pesca de arrastão na Praia das Pedrinhas, que ficava “próximo” da casa dele (na verdade uns três quilômetros, que fazíamos andando com o arrastão nas costas e mais três para voltar). Como o nome diz, essa praia tinha muitas e muitas pedrinhas que cortavam os nossos pés, mas praia de areia mesmo era muito pouca, bastava entrar um pouco na água e encontrávamos lama, muita lama, mas isso não importava, nós queríamos pegar uns siris ou, quem sabe, uns camarões para saborear naquele nublado dia (diziam que nos dias assim dava mais). Fizemos diversos arrastos, mas a maré não estava pra peixe, ou siri, ou camarão, até que conseguimos pegar um caranguejo azul enorme. Meu amigo, na ânsia de não perdê-lo, visto ser o único conseguido até aquele momento, meteu a mão nele. Pra que! O danado agarrou no dedão da sua mão e não soltava de jeito nenhum, o sangue saía borbulhando do seu dedo, mas o bicho não abria a garra. Tivemos de quebra-la com uma pedra para pode liberta-lo. Eu tinha uns doze anos, ambicioso e acreditava que poderia haver algo além daquele siri azul naquelas “límpidas” águas daquela praia bem ao fundo da Baía da Guanabara e continuamos arrastando. Distraídos fomos indo cada vez pra dentro da água, quando a maré começou a encher e não nos apercebermos. De repente eu tinha água até o nariz e lama até o joelho; atolado pela lama não conseguia sair para respirar. Lutava bravamente, tentando escapar dos dois inimigos, quando me agarrei à madeira do arrastão, usando-o como alavanca e consegui desatolar uma perna, aí mergulhei e usei a perna solta deitada como base no fundo do mar para desatolar a segunda perna e assim conseguir tirar a cabeça para fora da água e pegar um pouco de ar. Foi brabo, mas consegui sair daquele atoleiro molhado e sem nada.

18 novembro 2011

Short Story XV - Gasolina


Como dizia minha mãe, vivíamos “soltos pelos pastos” (era assim que ser referia à forma como fomos criados, ou seja, na rua). Lembro muito dos seus gritos nos chamando lá de casa: "Lieeeeziooo”, “Lieeeeeelllllllll”, “Dileeeeeiiiiii”, para voltarmos para casa (o grito ia longe, parecia uma araponga) e era assim que éramos chamados, ou nos chamávamos, pois, apesar do nome de todos os 8 filhos começarem com a letra “E”’, não pronunciávamos essa letra (que ironia, não?), era: Dilane, Dilei, Liel, Liézio, Lezer, Deí etc. Nosso parque de diversões era a rua e sempre tínhamos muita coisa pra fazer nela. Eram muitas as brincadeiras, como: Pique (todos conhecem), com suas diversas variações, “pique tá”, “pique ajuda”, “pique alto”, “pique baixo”, “pique cola” etc; garrafão, esse vou ter de explicar um pouco. Garrafão, como o nome diz, era uma imensa vasilha, tipo uma garrafa gigante, que desenhávamos na rua de barro. Era desenhado com os pés, raspando-o no chão, ou riscado com uma vara. Era tipo um pique, só que acontecia em volta dessa figura desenhada. As regras eram: um escolhido  tinha de pegar os incautos, ou os mais arrojados, e quando pego ou cometesse alguma infração, era espancado até conseguir alcançar um ponto definido previamente (normalmente bem longe pra apanhar muito). Era possível entrar e sair do garrafão, mas somente pela boca, porém os perseguidos podiam sair pelo fundo do garrafão (num pé só), o perseguidor, não. Os perseguidos podiam “cortar” de um lado ao outro dessa figura, só que de novo apenas com um pé (pépé, como chamávamos). Se colocasse os dois pés ou mesmo tocasse o chão, pisar na linha, ou ser pego, o pau cantava até conseguir alcançar o ponto definido, agora devidamente dificultado pelos demais para apanhar mais, obstruindo o caminho. Divertido, bati e apanhei muito brincando de garrafão. Tinha a “Bandeirinha”, que muitos conhecem, queimado (comum), amarelinha, pião, bola de gude (búlica, triângulo, mata mata, à vera, à brinca e outros tipos), cafifa etc, mas havia uma diversão adicional para a garotada da vizinhança, um velho pequeno caminhão que estava enguiçado a anos próximo à nossa casa. Lá nos brincávamos de dirigir no seu velho e grande volante, pulávamos nos bancos de palha e molas cheios de pulgas e na carroceria quase sempre tinha um “evento”. Um dia tivemos uma grande ideia, tirar gasolina do velho tanque para fazermos uma fogueira. Arrumamos uma garrafa de vidro e uma mangueira e fomos à luta. Enfiamos a borracha no tanque e ficamos tentando tirar o precioso combustível, mas não saía, estava difícil. Tentava um, tentava outro, mas todos moleques e burros, nada de conseguir, aí eu radicalizei, dei uma grande sugada e um liquido marrom e fedorento saiu, mas como puxei com forca excessiva não consegui conte-lo e engoli uma grande quantidade dela, foi terrível, a grande golada entrou garganta a dentro queimando e caiu pesado no estomago. Achei que ia vomitar, fiquei desesperado, mas nada de conseguir expulsar aquele troço de dentro de mim. Com minha “super sugada” o líquido continuou a sair e pude observar melhor o que eu engoli, não havia mais gasolina naquele tanque, apenas restos imundos de combustíveis, agua e ferrugem: sobrevivi.

14 novembro 2011

Short Story XIV - Pindamonhangaba

Onde está Wally (eu)?

Estudei num colégio interno, na verdade um seminário, por dois anos, ou quase dois anos, pois fui também quase convidado a sair faltando dois meses para me formar. Quase porque meu pai foi me buscar do “Egito” e do seu governador, conhecido por Faraó (porque judiava do povo de Deus). Até hoje tenho dúvida se o período que eu passei por lá foi bom ou foi ruim para mim (quase sempre acho que foi ruim, mas pode ser que tenha sido bom, vai saber). Era um lugar feito para te humilhar e te fazer se sentir um lixo, ou, como diziam, “barro amassado na mão de um oleiro” e assim “Deus poder operar” (vai entender). Eu procurava, dentro de um limite muito pequeno, me integrar, mas não era bem aceito pela “comunidade”, era mal visto (injustamente, há de ser registrado. rs). Lembro de uma vez que um deles, oriundo da região norte, onde trabalhava nos seringais, muito forte, brincava de agarrar e brigar com outros alunos e tentei entrar na brincadeira. Pra quê, na mesma hora ele recuou com medo de mim, do alto dos meus 59 quilos e 1,80 metros (vai entender 2). Tinha uns amigos, tão sorumbáticos e taciturnos como eu (blog é cultura), e fazíamos tipo uma gangue dos alijados, dos desenquadrados e dos revoltados (Pelo menos éramos vistos assim - vai entender 3). Eu não tinha muitos motivos para sorrir e assim era o meu dia, de trabalho e estudo, sonhando em ir em casa uma vez por mês. Neste Seminário, apesar de pago, éramos obrigados a trabalhar em regime de escala, seja lavando os banheiros, capinando, cuidando da horta, lavando panelões, cuidando da cozinha, trabalhando de graça no sítio particular do Faraó, enterrando vaca morta (no mesmo sítio), arrancando mato de um pasto com a mão (para não estragar o capim, dizia sabe quem: Faraó!) etc. A comida era racionada e era isso e um capítulo realmente degradante e humilhante de ver (graças a Deus não estava nessa). Uma vez por semana era servido ovo e era uma guerra. Era um dia especial e a fila começava cedo (tipo um show que as pessoas madrugam) e estes primeiros que pegavam o seu bandejão iam comer em pé, de novo na fila do rango, para pegar algum resto de ovo que tenha sobrado (ou não) e era apenas a metade de um ovo! O que tinha em fartura eram repolho e chá. Diziam na rádio corredor que havia alguma coisa naquele chá, mas nunca foi provado, mas achávamos estranho tanto chá, não havia café, e éramos incentivados a toma-lo, o que nos deixava ainda mais desconfiados. O café da manhã era uma grande caneca de chá com uns pingos de leite para “sujar” o chá ou o leite. O leite era muito, muito racionado e não adiantava voltar para a fila tentando pegar mais um pouco do resto, não davam. A comida era ruim, muito ruim, feita pelos próprios estudantes e os alunos mais duros dava dó, ou comiam aquilo ou morriam de fome. Teve um que foi internado por inanição, porque simplesmente não conseguia comer aquela gororoba que chamavam de comida e quem não tinha um dinheirinho pra comprar um pão velho, só restava a fome ou a morte. Eu era duro, mas nem tanto, fazia uma vaquinha com meus amigos sorumbáticos e comprávamos um litro de leite e colocava para esquentar num “rabo quente” e bebíamos no intervalo das aulas puro ou com groselha. Uma vez comprei uma garrafa de groselha só para mim e guardei no meu quarto, mas fui observando que o nível caía, mesmo eu não bebendo, e desconfiei que estava recebendo a visita do alheio, então tive uma ideia, peguei um vidro mercúrio cromo, dilui em água, coloquei na garrafa vazia de groselha e deixei aonde eu a guardava. Quando voltei da aula fui olhar minha "groselha" e para minha surpresa a garrafa estava pela metade!  O amigo do alheio tinha me visitado enquanto estava em aula bebido mercúrio cromo! Foi terrível, pensei que ele fosse morrer, mas não, descobri que beber mercúrio cromo não mata, pelo menos um eu sei que um tá bem vivo.

11 novembro 2011

Short Story XIII - Morte


Hoje, nesse mundo chato e politicamente correto, falar que matava animais soa mal, ou mau, muito mal, mas não era assim quando moleque, matar era entretenimento. Lembro de quando estávamos caçando passarinhos pra comer, isso mesmo, pra comer (horrível ouvir isso, né?), mas vamos viver a situação: éramos uns oito moleques “caçando”, na verdade tentando, pois nada conseguíamos pegar porque éramos incompetentes, simplesmente nada acontecia, os pássaros eram mais espertos que nós e foi quando um bando de andorinhas passou voando sobre nossas cabeças e eu, que já estava com minha arma engatilhada  (uma seta, ou estilingue, para os de fora), atirei para cima e uma pobre coitada caiu aos nossos pés morta. Foi uma festa, mas foi também uma guerra para dividir UM  passarinho assado, ou melhor, frito. Hoje me parece até engraçado: “a coxa é minha”, “eu que matei, quero o peito”, “eu também quero um pedaço” e assim ia a distribuição do “enorme” corpo da andorinha morta. Numa outra ocasião eu estava na casa de um amigo e a mãe dele pediu para matarmos uns pombos para comermos no almoço. Aí não prestou, eu amarelei. Para quem não sabe, mata-se um pombo estrangulando-o, girando o pescoço dele até sufocar e morrer, ou arrancar logo a cabeça, para quem tem mais coragem. Eu não conseguia completar o serviço, ameaçava girar, girava um pouco, dava uma volta no pescoço do coitado e voltava, não completava o serviço e assim o pobre pombo sofria mais (até hoje lembro dos seus olhos vermelhos, esbugalhados, olhando para mim, querendo sair da órbita) e não morria. O assunto foi resolvido quando a mãe dele veio com uma faca e cortou as cabeças e ponto final, comemos os coitados. Um dos meus irmãos tinha um requinte especial de crueldade com os animais, enterrava-os vivos. O processo era simples, cavava-se um buraco e colocava o escolhido dentro de buraco (no caso um gato), claro com um “pouco” de resistência e depois jogava terra em cima e ficava observado. Quando o bicho se mexia revolvendo a terra querendo sair, ele, juntamente com um amigo, socava a terra, pisava e pulava em cima e ficava observando de novo; se novamente a terra mexia o processo se repetia até parar (sabem porque, né?). Quando garoto havia um mico um nossa casa que morreu de saudades de outro dos meus irmãos, que era o dono  e quem cuidava dele, e eu queria vender o corpo para um curtume, só que estava fechado e tive de esperar abrir. O bicho ficou dentro do congelador por mais de um mês  (imagine, misturado com alimentos) até eu o vender para o curtume. Acho que vendi pelo o que seria R$ 1,00 hoje, pois não deu nem pra comprar nem uma mariola (pesquisem no Google, não vou dizer o que é). Também era comum minha mãe comprar ou ganhar galinhas vivas, que eram mortas com nossa ajuda. Segurávamos o corpo da escolhida, que tinha o pescoço cortado, até parar de se mexer (se escapasse era uma sujeira danada de sangue e a mãe ficava falando, “não solta, não solta, não solta!”), depois era jogada numa panela com água fervente para ser depenada, às vezes ainda se mexendo (ela dizia que eram espasmos, mas acho que ainda estava viva). Matávamos porco com uma fina faca enfiando-a debaixo do braço e atingindo o coração (até ouço os grunhidos dos coitados), bezerros eram mortos com uma marretada na cabeça (que apenas ficava atordoado e depois o serviço era finalizado com um facão) ou coelhos (tão bonitinhos, né?). A morte era natural, como tem de ser.

05 novembro 2011

Short Story XII - A Ilha


Fui criado num balneário às margens da Baia da Guanabara (rs). Sempre gostei de nadar e estar dentro das suas “límpidas” e mornas águas. Hoje reclamam que ela é poluída, mas no passado era pior, muito pior, pois, além dos esgotos domésticos, que hoje ainda se mantem, haviam todos os dejetos industriais, que diminuiu muito, graças às leis ambientais criadas a partir de uma maior conscientização de que não ia dar do jeito que caminhava. Assim tenho muitas histórias para contar que ocorreram nela, como a micose de pele que peguei nessas citadas águas; a vez que roubaram todo o meu dia de trabalho, fruto da venda de 200 picolés, num dia de sol de verão e muitas horas andando e gritando, “picolé!, olha o picolé!”, com meu chapelão de mexicano que minha mãe me deu; as vezes que fiquei atolado em suas lamas, as pescas de caranguejos, os quase afogamentos etc. E hoje vou contar uma. No interior da Baía da Guanabara existem muitas ilhas e algumas são bem próximas da terra e eu e a molecada gostávamos de nos aventurar nelas. Um dia eu e com uma dessas turmas arrumamos um velho caíco (pesquisem no google o que é), atravessamos o canal que a separava do continente e fomos à chamada "Ilha da Rádio Globo", que como o nome diz, tem a antena da mesma localizada nela. Nossa viagem de ida foi tranquila, fomos bem e nos divertimos muito lá, pescando, mergulhando e nadando nas suas minúsculas plácidas praias de lama, pedra e águas mornas. No final da tarde resolvemos voltar, mas aí não foi tão fácil como ir, pois começou a ventar muito e a arrastar o pequeno barco levando-o para outro lugar e, por mais que nos esforçássemos, o barco não ia para onde queríamos que ele fosse (continente), e ia nos levando mais e mais para dentro da Baía da Guanabara. Foi então que tiver uma maravilhosa ideia, me jogar no mar e ir nadando. Pra quê, a ideia, na teoria, era muito boa, mas não se mostrou tão boa assim, na prática. Logo que caí na água e comecei a dar minhas primeiras braçadas, percebi que havia outro inimigo além do vento que nos atrapalhava: as fortes correntezas que, oculta pelas escuras águas, passavam naquele canal e comecei a ser arrastado por ela e no sentido inverso ao barco, o barco ia para a esquerda da ilha e eu ia sendo levado para a direita. Me esforçava, dava braçadas, tentava nadar por baixo d’água e nada! (literalmente). Simplesmente não conseguia chegar à terra firme e nem voltar para o barco, aonde meus amigos continuavam bravamente a lutar. Minha luta se prolongou por um tempo que parecia uma eternidade e a correnteza foi me levando, me levando para dentro da área restrita duma usina termoelétrica que é quase em frente à ilha. Eu, exausto, consegui me prender e um dos dois grandes tubos de aço que era usado pela usina para levar a água do mar para gerar vapor e energia. Com dificuldade conseguir me grudar no grande tubo, que graças a Deus não estava puxando água naquela hora, senão teria sido sugado para dentro dele (era imenso para mim). Descansei um pouco e fui de “cachorrinho” para a margem. Pensava ter terminado meu sofrimento, mas me aguardava os seguranças da usina que me esperavam para me dar uma lição (como se eu ainda precisasse). Tentei explicar o que havia ocorrido, mas não teve jeito, fui escorraçado para fora da usina.

P.S. Na foto estão marcados a ponta da ilha onde estávamos e para onde fui arrastado.
       Quem quiser saber aonde é click no link: http://g.co/maps/b5qc3

02 novembro 2011

Short Story XI - A Caixa


Já era velho, por favor, não perguntem a idade, afinal vou fazer meio século! Estava no telhado consertando a boia da caixa d’água que havia quebrada na noite anterior, inundado a minha casa (paredes, teto, quintal, janelas de madeira..., tudo molhado). Sou o tipo “faz tudo”, trabalhei em obras com meu pai e meu irmão que me deram habilidades básicas para construir e reformar. Minha casa, da concepção, projeto, construção, instalações elétrica, água e esgoto, pintura etc tem minhas mãos, meu suor e muitas e muitas vezes, meu sangue (sempre me machuco quando vou fazer algo, já deixo pronto do Polvidine à gaze), mas não é sobre isso que quero falar. Como dizia, consertava a boia da caixa d’água. Era uma caixa grande e redonda, com quase 2.000 litros, alta, com um buraco redondo na parte de cima, que quase encostava no telhado do meu terraço, de fibra, com uma tampa de rosquear (tipo um parafuso gigante), e, por esse buraco, passava um pouco mais que o meu corpo. A caixa estava cheia, pois não podia esvazia-la, porque estava havendo um evento em minha casa e não podia ficar sem água. Eu tinha de trocar a boia e tentava de diversas maneiras alcançar a quebrada, a fim de colocar a nova. Então, como meus braços não alcançava a danada tive uma ideia, enfiar um pouco a cabeça dentro da caixa (havia um pequeno vão livre, sem água) para assim ter uma maior amplitude e alcançar a boia velha, mas não conseguia concluir o trabalho, estava muito dura, não saía de jeito nenhum, assim enfiei um pouco do tronco para dentro da caixa, deixando o resto do corpo pra fora fazendo um pêndulo para me equilibrar e me manter fora da caixa. Rodava, rosqueava, pegava uma ou outra ferramenta, contorcia meu corpo tentando alcançar e consertar a bendita quando subitamente me desequilibrei e caí de cabeça para baixo dentro da caixa. De repente me vi com todo o meu tronco enfiado dentro d’água e de cabeça para baixo, apenas com as pernas de fora. Lutava para sair, mas o mesmo corpo, que antes me equilibrava fazendo um pêndulo e me mantendo do lado de fora da caixa, agora me empurrava pra dentro dela, me impedindo de sair. Me esforçava tentando sair, me virava no pouco espaço que tinha, mas como era muito profunda não conseguia me pôr para fora, mesmo esticando meus braços não era suficiente. O tempo foi passando e o ar começava a me faltar e não conseguia sair. Tentei então terminar de entrar na caixa e assim me levantar, mas não conseguia, não havia espaço suficiente para esse movimento e eu nem entrava, nem saía. O desespero começou a tomar conta de mim, visto que o ar fazia cada vez mais falta, comecei a imaginar o pior, eu, sozinho, no alto de uma pequena laje, colado a um telhado, um lugar de difícil acesso, que nem dava pra me ver, apenas as pernas de fora, morto afogado, quando de repente saí, inexplicavelmente saí. Vivi um milagre, Deus poupou a minha vida (de novo).

P.S. Imagem igual a da caixa descrita na história.

29 outubro 2011

Short Story X - A merendeira



Dinheiro era algo que não existia para nós, os livros que usávamos eram dos irmãos mais velhos, que tinham de usar com carinho e cuidado, escrever com lápis, para poder ser apagado e ser reutilizado pelo mais novo, pois não existia livros do governo (odiava usar livro usado, sempre fui metido). Esse procedimento já era uma prévia do mundo “sustentável e reciclável” de hoje. Para ir a escola eu tinha uma pasta preta, tipo as usadas por advogados, feita de courino, onde levava meus livros, cadernos e meu pão com manteiga embrulhado num pedaço de papel de pão (às vezes também colocava açúcar junto com a manteiga. Não existia margarina nem óleo de soja, era manteiga e banha de porco). Adorava o cheiro que ficava na pasta do pão misturado com os livros, lápis e cadernos, lembro até hoje, mas eu tinha um sonho: uma merendeira. Era meu sonho de consumo, via as crianças usando e ficava imaginado uma só minha. A merendeira era, guardada as devidas proporções, como as que as crianças usam hoje, uma caixinha quadrada, com um furo na tampa para passar uma garrafinha e uma alça para ser levada. Eu via aquelas merendeiras sendo levadas pelas outras crianças e a desejava, mas não tinha o vil metal. O tempo foi passando e fui descobrindo maneiras de consegui-la: trabalhando, catando ferro velho, garrafas, cobre, metal ou vendendo minhas preás na feira que era em frente à minha casa. Assim resolvi focar, parar de comprar mariolas e fazer um pé de meia com o dinheiro que conseguia, para poder comprar a minha própria merendeira. Fui amealhando os recursos, poupando meus centavos, guardando até que consegui o suficiente para compra-la e assim o fiz. Era linda! De plástico verde, com a tampa branca bordada em alto relevo, marcando o plástico flexível. Tinha um buraco para passar a garrafinha vermelha, maravilhosa! Levei para casa, preparei meu pão com manteiga, enchi a garrafinha de suco de caju e fui orgulhoso para a escola. O único problema é que eu já tinha completado 13 anos e estava ridículo, daquele tamanho, com uma merendeira de criança pendurada no ombro. 

25 outubro 2011

Short Story IX - Tábua de Sebo


Pobre todos já sabem que eu era, mas isso não me causava nenhum constrangimento ou embaraço, porque os outros garotos com que convivia eram iguais ou piores que eu. Poucos eram “ricos” (tinham TV preto e branco e/ou bicicleta), o restante eram ferrados como eu, mas isso não tinha importância naquela época, não consumista como hoje e medidos pelo o que se tem: éramos felizes. Pelo descrito, logicamente não ganhava brinquedos e fazia os meus próprios brinquedos (quando criança só lembro de ter ganho um único brinquedo no natal, um caminhão de bombeiro que esguichava água.), e um dos meus brinquedos favoritos eram os “carrinhos de lata”. Sabem o que é? Vou explicar. Eram latas, como as de leite em pó, com um furo em cada extremidade, que era transpassado por um arame, que servia como um eixo, era preenchida com areia para dar peso e assim poder ser puxado como um carrinho de criança, só que era uma lata (o carrinho estava na imaginação). Assim íamos brincando, puxando nossos “carrinhos” pelas calçadas da rua e eu tirava onda, os meus carros eram enormes, um verdadeiro comboio, com seis, até dez ou doze latas, interligadas uma na outra. Show! Claro que os vizinhos não gostavam nem um pouco, porque quase sempre a lata abria, seja por rodar forte, por bater em algo ou por fadiga de material mesmo, e a terra entornava em frente às casas dos mesmos. Claro, não limpávamos nada, ficava entornado mesmo. Também havia a “tábua de sebo,” que era um pedaço tábua com cerca de 60 cm, encerada com o puro sebo do açougue do seu Antônio (não tinha acesso à graxa ou cera). O coitado sofria, todo dia aparecia um monte de moleques pedindo um pedaço de sebo e ele quase sempre dava, cortando num tronco de madeira com sua grande faca (a carne era cortada em pedaços de troncos de árvores gigantes, não havia resinas como hoje). Ele era legal, sempre tinha meu sebo pra passar na minha tábua. Devem estar se perguntando, mas para que servia essa tábua de sebo? Pra descer o morro, ora! Havia uma ladeira, próxima à nossa casa, que era concretada. Íamos até o topo, sentávamos na tábua e descíamos a ladeira a toda. A minha tábua era uma das mais velozes e quando eu vinha morro abaixo tinham de sair da frente, se não passava por cima (não havia freio, o freio era um lixão que havia na esquina: estabancava-nos nele). Um dia eu me preparei, dei meu grito de guerra, “sai da frente! Lá vou eu!” e desci. A princípio foi uma descida tranquila, mas minha tábua começou a girar lentamente para a esquerda (não havia direção) e comecei a descer de lado. Continuou girando e fiquei agora de costas a toda velocidade, mas, como desgraça pouca é bobagem, ela foi indo em direção à sarjeta, que desciam os esgotos das casas e eu não conseguia desviar (estava de costas, lembra?). Assim vinha eu, a toda, como passageiro, pelo canto da sarjeta quando uma pedra segurou a tábua, ela ficou presa e eu fui arremessado pra frente, caindo com as costas na sarjeta de esgoto, que foi ralando e sendo comida pelo concreto áspero, coberta pelo esgoto fétido. Foi uma mistura de sangue e lama e, pra ficar legal, tive de aturar as gargalhadas dos “amigos”, rindo, e muito, da minha desgraça (crianças são cruéis). Para fechar com chave de ouro: corri para casa, com as costas ardendo, doendo muito e chorando e minha mãe cuidadosa e carinhosamente passou vinagre com sal para desinfetar os ferimentos das minhas pobre costas. Já passaram vinagre com sal na carne viva? Arde.

21 outubro 2011

Short Story VIII - O Tubo

Como já disse, agradeço a Deus por ter ainda todos os meus dedos, mãos e a minha visão (principalmente depois da pólvora preta), porque vou dizer uma coisa...! Já aprontei cada uma! Quando moleques nós tínhamos umas atividades que hoje eu acho hardcore, mas era nossa diversão. Uma delas era derreter chumbo. Hoje sei que os vapores do chumbo não fazem nada bem, causando problemas psíquicos e câncer, mas quando crianças não sabíamos de nada disso e vivíamos brincado de derreter chumbo para fazer bonecos, escultura diversas, peso para pesca ou simplesmente vê-lo ficar líquido. O chumbo nós tirávamos de uma casa velha abandonada da rua. Olha, não sei se já foram queimados com chumbo derretido, então vou informar, arde. Essa atividade era realizada, como tudo, de forma muito precária, com uma fogueira com restos de madeira de caixa de feira e uma latinha de sardinha, que usávamos para colocar o chumbo a ser derretido. Outra diversão era explodir latas de aerossol. Sempre que achávamos uma num lixo era uma festa, sabíamos que ia ter festa. Latas de aerossol eram raras, porque eram caras, pois pra matar mosquitos nós usávamos a “bomba de flit”. Já ouviram falar? Era uma bomba, tipo de bicicleta, com um recipiente na frente para colocar o inseticida líquido. Aí era só bombear o ar e o “flit” saia do outro lado, em forma de vapor, para matar os mosquitos, muriçocas, baratas e insetos diversos.Também gostávamos de andar pelos muros das casas, se equilibrando (os melhores eram as mais altos). Nosso vizinho colocou azulejo para impedir que nós andássemos no muro dele, mas nada podia impedir os educados filhos de Alberto. Mas voltando aos aerossóis. Como dizia era diversão porque íamos explodi-las. O processo era o seguinte, fazíamos uma fogueira, um fogo bem abundante e quando estava bem forte, jogávamos a lata de aerossol no fogo. Então era esperar um pouco e bum! Era uma grande explosão. O que era de janelas abrindo, com os vizinhos procurando entender o que estava ocorrendo! Só vendo. Uma vez o fundo de uma dessas latas voou grudou na batata da perna de um amigo. Foi hilário! A lata grudou na perna dele, pois derreteu a pele e fiou aquela argola preta na perna. Foi muito engraçado (não foi comigo, tinha de rir). Depois disse passamos a manter uma distância segura. Mas a big one foi quando explodimos um tubo de imagem de TV. Já explodiram um? Pois eu dou aconselho, tomem cuidado. Foi a maior explosão que já vi na minha vida e olha que eu já vi muitas hein! (um dia eu conto algumas). Primeiro tivemos que conseguir um tubo com o vácuo, normalmente as oficinas tiram esse vácuo antes de descarta-los, mas esse estava intacto. Nossos olhos brilharam quando o vimos. Levamos, com dificuldade, pois era pesado, para os fundos da minha casa e começamos o processo. Primeiro começamos a jogar umas pedrinhas, como não quebrava (na verdade essa era nossa intenção, quebrar para vender o vidro), aumentamos o tamanho das pedras, e nada! O vidro era muito grosso e duro, quando meu amigo radicalizou, pegou um paralelepípedo e arremessou contra o tubo. Aí sim explodiu, bum! Sentimos até o chão tremer. Foi demais, ficamos apavorados e saímos correndo. Repetindo, graças a Deus eu ainda enxergo, o vidro grosso do tubo ficou como vidro moído, picadinho.

18 outubro 2011

Short Story VII - O Quadriciclo


Não quero chorar miséria, apenas contar histórias, por isso tenho de falar, éramos duros. Não tínhamos brinquedos e precisava nos virar e usar nossa imaginação e habilidades. Assim estávamos sempre inventando e construindo nossos brinquedos, como patinetes feitos de rodas de bilhas ou “carrinho de rolimã” (era assim que chamávamos, feitos com rolamentos usados). Haviam duas versões desses patinetes, um para andar sentado, que eram o terror dos dedões, pois passavam por cima dos coitados quando estávamos remando com as mãos no chão, dando impulso para ele andar, e uma versão para andar em pé, parecido com os modernos patinetes de alumínio de hoje, mas como as rodinhas eram de ferro e muito pequenas, quando uma pedra entrava embaixo da roda nós voávamos por cima de “guidom”. Tudo muito precário, feitos de madeira e pregos, construídos por nós mesmos, crianças, sem nenhuma supervisão de adultos, um caos! Mas um dia tudo mudou, nós achamos no lixo um quadriciclo. Ele já era velho e enferrujado, sem a proteção na empunhadura da alavanca e com pedaços de ferro meio soltos. Tinha quatro rodinhas (por isso o nome), um banco de metal amassado, sem encosto, na parte atrás e era dirigido pelos pés (as duas rodas da frente giravam num eixo permitindo virar para esquerda e direita). Esse brinquedo era o máximo para nós e tocávamos o zaraia com ele. Íamos sempre na velocidade máxima, com um sentado (gritando o tempo todo, “mais rápido, mais rápido!”) e outro atrás empurrando como se fosse o motor. O problema era a alavanca que foi construída para fazer o carro andar, como se fosse pedal de uma bicicleta, só que com as mãos pois, como tinha um “motor” atrás empurrando o carrinho, aquela alavanca ficava solta, indo pra trás e pra frente se movendo freneticamente sozinha, movida pela engrenagem do carrinho. Pois bem, uma vez eu ia de motor para meu irmão caçula, que ia sentando e “dirigindo” o possante com os pés, quando, ao passarmos por uma protuberância na calçada, subimos e capotamos. Voamos nós três, eu ele e o trambolho. Foi uma confusão danada e eu, com dificuldade, consegui me desvencilhar do carrinho e do meu irmão que estava em cima de mim, mas não conseguir tirar o brinquedo, a alavanca tinha encravado na virilha dele. Um pedaço de ferro velho e enferrujado estava enfiado dentro do meu irmão e eu não sabia o que fazer. Um conhecido viu aquela situação e ajudou, “extraiu” o ferro cuidadosamente e o levou para o pronto socorro municipal (já éramos conhecidos lá). Levou doze pontos, quase ganhou na Loteria Esportiva.